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Campeão... De treino?

00:00 | 01/10/2017

 

Por Rossman Cavalcante

SHUTTERSTOCK
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O assunto desta coluna interessa aos praticantes de corrida, principalmente aos integrantes de assessorias esportivas especializadas nesse esporte. Se esse for seu caso, certamente já se deparou com um tipo de atleta conhecido como “campeão de treino” (talvez até você seja um deles), ou como se dizia no meu tempo: “leão de treino”. É o sujeito que, durante os treinos, costuma não seguir as orientações da planilha para chegar à frente dos outros, se destacar de alguma forma ou demonstrar de maneira quase caricatural seu sacrifício pessoal para ganhar o treino. Infelizmente nas competições que participa, os bons resultados não aparecem.

O título pode até parecer pomposo para quem não sabe o que significa, mas na verdade esse tipo de atleta precisa de ajuda, pois corre alguns riscos. Normalmente, nas planilhas de treino para esportes cíclicos (caracterizados pela repetição contínua e normalmente prolongada de um mesmo gesto esportivo), como a corrida, o ciclismo e a natação, são definidos previamente alguns parâmetros que devem ser atingidos, a fim de produzir as adaptações fisiológicas e neuromusculares, planejadas pelo treinador de acordo com a fase do treinamento.

 

Para o “campeão de treino” parâmetros não são importantes, quem sabe do que ele precisa é ele próprio, então o que interessa é dar o máximo, mesmo que esse não seja, nem de longe, o objetivo daquela proposta de treino.

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Por exemplo, imagine um treino de corrida na segunda-feira em que o praticante deveria percorrer, após um trote de aquecimento, a distância de 6 km em aproximadamente 30 minutos. O treino começa e o “campeão de treino” percebe que um dos seus companheiros, mais velho e com alguns quilos a mais que ele, está correndo na sua frente... Pronto! Aquilo é o gatilho que o sujeito precisa para abandonar a meta prevista pelo treinador, engatar uma 5ª marcha com uma velocidade bem acima da prevista e que, apesar de possível, representa uma sobrecarga perigosa e desnecessária. Quer saber o que pode acontecer com esse tipo de atitude?

EM CURTO PRAZO: Risco de lesão aguda, aquela que ocorre pelo fato de você impor para uma estrutura musculoesquelética um esforço acima do que é possível suportar. Normalmente quem paga o preço são os músculos, sendo as panturrilhas e a região posterior das coxas as mais afetadas.

EM MÉDIO PRAZO: Os parâmetros de um treino de corrida são estipulados considerando o esforço e o necessário tempo de recuperação até o treino seguinte. Extrapolar a intensidade fatalmente não permitirá que as estruturas motoras envolvidas na corrida estejam prontas a tempo de um novo treino. Em outras palavras: prejudica-se o treino cujos parâmetros foram desrespeitados e o próximo também.

EM LONGO PRAZO: Sabe aquele ditado: “Água mole em pedra dura tanto bate até que fura”, pois é, as articulações e até os ossos são as estruturas que mais sofrem com esforços mal dosados, acumulados de forma crônica. Desgastes precoces, processos degenerativos e fraturas por estresse são algumas das lesões que podem acontecer com os “campeões de treino”.

NA COMPETIÇÃO: Posso contar aqui vários relatos de atletas que atingiram o pico de suas capacidades motoras ANTES da prova para a qual treinaram além da conta. Justamente quando deveriam estar no auge de sua aptidão física, o corpo e a mente já apresentavam claros indícios de overtraining. Imaginem a frustração do “campeão de treino” chegando atrás de corredores supostamente mais fracos.

- Mas, professor, eu estou me sentindo bem e posso correr por muito mais tempo ou bem mais forte que isso.

Ao analisar esse argumento, duas questões merecem ser consideradas: A primeira é que nem sempre é possível perceber quando as estruturas desgastadas por um treino forte estão plenamente recuperadas e aptas para um novo estresse mecânico, ainda mais entre corredores recreativos de assessorias esportivas; a segunda questão é que os parâmetros de treino definidos em planilha deveriam ser selecionados a partir de testes diagnósticos, indicadores fisiológicos de fadiga, feedback frequente e registros dos resultados de treinos e competições anteriores. E se não for esse o caso? Aí sim! Pode ser que realmente seus treinos estejam sub ou superdimensionados.

Enfim, treinar forte é uma das premissas para melhorar os resultados, mas ninguém precisa ganhar treino. A ideia é melhorar o próprio desempenho e atingir os objetivos previamente estabelecidos. Nesse contexto, sabem o que é interessante? Quem normalmente consegue isso busca superar os próprios limites apenas quando necessário e de forma controlada, garantindo treinos seguros, metas batidas e por que não um “bullyingzinho” básico com o campeão de treino que acabou de “comer poeira” na última prova: - “Engraçado não é? Nos treinos, você sempre chega na minha frente.”

Bons treinos!!!