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O caneco por um doce de leite

01:30 | Jan. 06, 2018
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Raimundo de João Felismino, “dotô de duas laigura” – graduado e pós-graduado. Nascido nas brenhas cearenses, estava na cidade havia oito anos. Tinha um sonho: levar seus professores à fazenda onde nascera, onde moram os pais. Só para experimentarem a comida boa e farta característica dos velhos, notórios por empurrarem dicumê nos convidados, até dizer chega.

- Caba só se alevanta da mesa com o bucho pela goela, golfando! – dizia o pai.

- Depois tibunga na rede e dorme inté o caneco fazer bico! – reforçava a mãe.

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Deu certo naquele maio chuvoso bom de curimatã ovada. Caravana chega beirando meio dia em micro-ônibus - João, os mestres da “facundade” e as respectivas esposas. Famélicos e desejosos de ligeiro provar a ‘cumiduria’ afamada dos genitores do aluno dedicado e gente fina, agora “dotô de duas laigura”. No alpendre de casa, à chegada, coisinha pouca pra enganar tripa: bacias pela tampa de milho verde, mangas, atas e goiabas e “almêxa do mato”.

- E uma carrada de ovo de capote cozido ouvindo a conversa! –

gabava-se o pai.

- Pra quem apriceia farinha... – jactava-se a mãe.

O prato principal do almoço: perua jandaia no leite do coco. Na verdade, três dessas aves, cevadas – chiqueiradas de sete dias. Sobremesa: caçuá de seriguela inchada de entrada e, a seguir, o valendo: doce de leite de caroço. Pense num doce! Mas teve um probleminha. Apenas dois pires pra servir 18. O pai de João reclama:

- Se tivesse me falado, mulher, tinha comprado um balseiral desses pirex...

- E agora, homi?

- Vamos servir os ‘prefessô’ primeiro, eles são educado... Depois, o povo de casa.

Pospasto divino, fazendo que um dos professores educados esquecesse a etiqueta. Foi à cozinha, no maior verme, e comeu bocados (acompanhado da esposa) diretamente na panela, ainda fervendo. Com as mãos. Diante da arrumação, o pai de João oferece caneco d’água ao docente esgalamido, assaz admirado:

- Não sabia que o dotô apriciava tanto um docim de leite com caroço!

- Dou até o caneco por esse troço, meu senhor!

Maxixe da saudade

No Alto dos Bodes morava Zé Galego, cabra bruto à moda canto de cerca. A bodega era em casa. Especializou-se em tira-gosto pra cachaça, toda qualidade de cana que se possa imaginar. Pra testar se Zé era mesmo da turma de seu Lunga, quem lá esteve? Totonho Cabeça de Prego. Que, no pé do balcão, perguntou besteira:

- O que é que o colega tem pra beliscar?

- Alicate, ‘troquês’, meus dedo...

Daí a lapada de cana entornada no seco. E logo Totonho se reclama:

- Diabo de cachaça amaiga, azeda, ruim de engolir?!?

- O decente devia então ter pedido doce de leite, pudim, cocada, mariola...

- Pois me dê uma coisa quente pra limpar a desgraça dessa cana na garganta!

Zé Galego foi lá dentro e cozinhou dois maxixes em lenha de angico (pau que dá fogo mais quente que o centro do inferno). E trouxe a parelha queimando prato. Totonho, pra mostrar que era macho, toma outra reada de pôde sem futuro e morde o cão do maxixe. Que de tão quente anestesiou-lhe a boca. Ele agora nem engole nem cospe o maxixe. Lacrimeja... Ao ver o sujeito choramingar, Zé Galego pergunta o que foi. E a resposta do chorão, que não dá o braço a torcer...

- Macho, é saudade de mãe!!!

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