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Búzios de Moçambique

2018-07-07 01:30:00

 

Decidi colecionar búzios das praias do mundo. Eles parecem muito com a Literatura, no seu modo de nascer e viver. Coleções assim conservam a ilusão de que os lugares distantes estão sempre perto, são nossos de certa maneira, estão ao alcance, dentro de casa.

É dessa ideia que vive o comércio de souvenirs, essa linda palavra que significa memória. Será mesmo possível comprar memórias? Já tentei cultivar coleções de canecas, moedas, imãs de geladeira. São bonitas, porém desprovidas de emoção. A maioria eu comprei em lojas de turista, mas eu prefiro ser mesmo uma viajante, alguém que passa pelo mundo deixando que os lugares permaneçam em mim. Turistas andam, olham e vão embora. Viajantes, de alguma forma, ficam lá para sempre. Eu permaneço em várias praias onde já estive.

Os búzios guardam a vida do mar. Antes, eles foram a proteção de um molusco, sua casa e seu escudo. Surgem pouco a pouco, por camadas. São feitos do carbonato de cálcio da água do oceano, o que faz do búzio uma parte do mar em estado sólido. Quando o bicho já pode viver sozinho, deixa a casca na água e segue adiante. E a vida flui.

Minha coleção de búzios tem somente dois exemplares, até agora. O curioso é que vieram do mesmo lugar, com mais de vinte anos de diferença: do mar de Moçambique. O primeiro quem trouxe foi meu padrinho, Ary Leite. Seu trabalho o levava a viajar pelo mundo inteiro. Nos anos noventa, voltou de uma das suas viagens à África trazendo essas preciosidades da natureza. Fiquei com um dos búzios gigantescos, parecia porcelana pintada, envernizado, algo tão precioso que guardo como tesouro. Encostando o búzio no ouvido, eu podia escutar o mar de lá.

Ary, um dos maiores pesquisadores de cinema e fotografia no Brasil, fez lindas imagens de Maputo, das crianças, da cidade, da praia. Sempre achei uma maravilha absurda viajar para a África, um reencontro com a origem das nossas almas. Das vezes em que fui e voltei, algo de muito bom me aconteceu. A África me dá sorte e desejo voltar sempre.

O segundo búzio da minha pequena coleção veio da Ilha de Moçambique, essa cidade insular, patrimônio histórico da Unesco. É uma ilha de poetas, que já recebeu Camões, Tomás Antônio Gonzaga e Bocage. Quem me deu foi José Eduardo Agualusa, em um gesto de amizade que eu nunca vou esquecer. Ele tomou minhas mãos como se fizesse um cumprimento formal, mas deixou na minha palma, de presente, um pedaço do mar africano.

Agualusa é angolano, mas decidiu morar na ilha, comprar uma casa, organizar sua biblioteca para, futuramente, abrir ao público. Foi lá que nasceu sua filha caçula, a Kianda. É uma ilha literária, por sua história e beleza. Minha segunda relíquia já chegou trazendo essa força toda, nas mãos de um dos meus autores favoritos.

Meu par de búzios de Moçambique existe para lembrar que a natureza sabe muito mais do que podemos supor. Somos apenas pretensiosos ignorantes tentando entender alguma coisa sobre a vida. Será que Camões, Tomás Antônio Gonzaga, Bocage, Agualusa, Mia Couto e os demais poetas da ilha já pensaram sobre os búzios espalhados pela areia? Será que tentaram ouvir os seus recados? Com eles, permaneço em Moçambique, nessa praia onde nunca estive.

 

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