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Capim sabe ler?

2018-06-16 01:30:00

“Capim sabe ler? Escrever? Já viu cachorro letrado, científico? Já viu juízo de valor? Em quê? Não quero aprender, dispenso. Deixa pra gente que é moço. Gente que tem ainda vontade de doutorar. De falar bonito. De salvar vida de pobre. O pobre só precisa ser pobre. E mais nada precisa. Deixa eu, aqui no meu canto. Na boca do fogão é que fico. Tô bem. Já viu fogo ir atrás de sílaba?”


Quem perguntava tudo isso era Totonha, sempre que alguém insistia para que ela começasse um curso de alfabetização de adultos. Pernambucana, analfabeta por falta de oportunidade na infância e, depois, por convicção, ela não via utilidade, não sabia para que servem essas letras todas, as palavras presas no papel. Sua sina era ler a presença dos outros, os olhos, os tempos da natureza, a ordem natural das coisas, a dureza da vida. Entender tudo isso e seguir vivendo já parecia suficiente à Totonha. E assim foi.


Totonha é tia de Marcelino Freire, um menino que cedo aprendeu a ler lá em Sertânia, no Pernambuco. Gostou tanto que não largava os livros. Leu Manoel Bandeira até começar a tossir. O que você tem, menino? Tuberculose, respondeu para sua mãe, querendo vestir a fantasia do poeta doente. Foi com o amor pelos livros que ele escapou de ser a estranheza toda do sertão. Não aguentava o sol, não tinha a disposição e a força física dos outros. Nenhum talento pro roçado, pra lida. O que seria dele, tão desmilinguido, tão sem força?

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Parecia condenado à ineficácia da vida, até que começou a ler a Bíblia para a mãe. Lia as bulas de remédios, as receitas, as coisas necessárias. Depois, passou a escrever cartas para os parentes que foram embora para as cidades grandes do Brasil. Ele anotava as notícias de quem ficou: empregos, casamentos, nascimentos, mortes, saúde, doença, recados da natureza, se choveu ou não. Ouvia a narrativa, recriava e lia a carta toda pronta para a família ouvir. Sua mãe chorava, copiosamente, emocionada com o jeito que ele arrumava as coisas, aquele sentimento todo ali nas letras, uma poesia nascendo das pedras.


Um poeta. Marcelino sabia que era esse o caminho para sua vida. Saiu do Pernambuco para São Paulo, como tantos outros. Publicou livros, ganhou prêmio Jabuti, viaja o Brasil e o mundo por causa da sua literatura. Marcelino, quando fala, enche o lugar inteiro. Faz rir e chorar. Ele senta diante da plateia e todos estão ali com ele: sua mãe, sua tia, os homens e mulheres do sertão. Os invisíveis do caos urbano. Os negros escravizados, os que sofrem hoje, a gente toda que pega ônibus lotado, ganha pouco, vive mal, sofre, pena. Os tortos, os mal encaixados, os que não tem lugar. Todos podem ser vistos, enfim.


Marcelino Freire publicou sete livros até agora, EraOdito, Angu de Sangue, Balé Ralé, Contos negreiros, Rasif, Amar é crime, Nossos ossos. Vem livro novo em breve, felizmente. Mais alegria que livro novo, só a de ter ele conosco em Fortaleza, no Festival Vida&Arte e na Especialização em Escrita Literária da Faculdade Farias Brito. Ele vem trazendo o Brasil todo com ele, a voz de quem não tem voz. Bendito Marcelino entre nós.

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