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O professor de olhos miúdos

2018-05-19 01:30:00

Acho que era o ano da graça de 1993 quando decidi assistir a um seminário de cultura francesa na Universidade Federal do Ceará. Foi ideia da Cristina, minha amiga, que já falava francês muito bem, era grande leitora dos clássicos e contemporâneos, estava voltando de um temporada em Reims e sempre me guiava para programas inesquecíveis.


Era meu primeiro evento universitário e eu, aos dezoito anos de idade, estava sentindo a emoção de um rito de passagem. O seminário aconteceu em um auditório da Casa Amarela Eusélio Oliveira e me marcou por causa de duas conferências. A primeira foi da escritora Beatriz Alcântara, que contou da sua relação com a literatura francesa e hábitos de leitura, criada em uma casa onde não era permitido ler traduções. Tudo no original. Proust, inclusive. Ainda escreverei uma personagem que dirá essa frase: “eu não leio traduções, aprendo os idiomas e leio no original.” Claro que terá o nome de Beatriz, pois achei incrível.

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A última fala do dia era de um professor todo vestido de bege. Não lembro o tema original da apresentação, mas ele subverteu um bocado. Já gostei. O que decidiu fazer foi contar um livro: Fahrenheit 451, do Ray Bradbury. Explicou que o título fazia alusão ao ponto de fusão do papel e partir disso contou a trama da forma mais apaixonante que já vi na vida.


Seus comentários eram entrecortados por um profundo conhecimento de História, Sociologia e Filosofia que todos conseguimos compreender. Ele teve a sabedoria dos grandes narradores: prendeu a audiência pela nossa necessidade ancestral de ouvir uma estória e saber seu fim. Ao mesmo tempo, compreendíamos o subtexto com a ajuda do leitor sofisticado que ele era e que, como dizia Drummond, tinha a chave na mão.


Era um senhor elegante, muito charmoso, já de cabelos grisalhos e olhos miúdos que fechavam quase completamente quando sorria, com total domínio da palavra. Eu mesma não conseguia respirar, saí impressionada, querendo o livro a todo custo. Acho que arranjei emprestado no mesmo dia e li quase imediatamente.


Na calçada da Casa Amarela, enquanto caminhávamos para pegar o saudoso Circular, eu disse à Cristina que poderia passar o resto do dia ouvindo aquele homem maravilhoso contar livros e mais livros, todos da vida dele. Não falei baixo, lembrem-se que eu tinha dezoito anos e estava empolgada. Foi quando alguém cutucou meu ombro e pediu licença para passar por nós na calçada estreita. Era ele, o professor de olhos miúdos. Tenho certeza de que ouviu meus arroubos, pelo sorriso meio tímido e vaidoso quando agradeceu a passagem e saiu apressado. Morri de vergonha.


O elegante senhor chama-se Eduardo Diatahy Bezerra de Menezes, professor emérito da Universidade Federal do Ceará. A literatura nos aproximou e hoje ele é um amigo querido, esteve na defesa da minha dissertação de mestrado, lê meus textos, fala de mim pro Daniel Pennac e me honra com suas mensagens. Bonheur de la vie. O professor de olhos miúdos me ensinou, muito cedo, uma das maiores lições da minha vida: se quiser envolver uma audiência, conte uma boa estória e ame a Literatura. É o que faço até hoje, certa de que a mocinha de dezoito anos jamais imaginaria essa graça do destino.

Gabrielle Zaranza

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