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VERSÃO IMPRESSA

O mundo inteiro cabe no Plebeu

2018-04-21 01:30:00

Ela já usou cabelos azuis, cor de rosa, amarelíssimos e agora anda acostumada com o vermelho carmim em fios bem assentados por cima das ideias. As contas dos seus colares podem ter o tamanho de uma maçã, bem como as pedras dos anéis. Não há qualquer limite para o número de tons de suas roupas, sapatos, óculos e acessórios, pois o arco-íris pessoal de Adelaide Gonçalves tem muito mais que setenta e sete mil cores.


Sua decisão de vida foi ser professora de História na Universidade Federal do Ceará. Uma professora daquelas que gosta dos alunos, que está em sala de aula na condição militante de somar ideias, palavras e utopias. E sobretudo, como alguém que acredita mais na força coletiva do que no espiral enlouquecedor de um pobre e feio ego solitário.

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Apresentações feitas, já é possível dizer que entrar no Gabinete Plebeu de Leitura é um acesso à cabeça de Adelaide Gonçalves, tal qual pensou o gênio Charlie Kaufman ao escrever o roteiro do filme Quero ser John Malcovich. É a mesma coisa. Ao entrar no Plebeu me deu muita vontade de ser a Adelaide, saber tudo que ela sabe, ler tudo que ela já leu na vida, das páginas e do mundo, ter os amigos e amigas que ela tem. Que sorte ser uma delas.


O salão mágico funciona ao lado da Associação Cearense de Imprensa e é o abrigo do acervo de cerca de doze mil livros, revistas, objetos de arte, quadros, relíquias, material de xilogravura, bandeiras mexicanas, matérias de jornal emolduradas, tudo que até pouco tempo pertencia somente à Adelaide e que ela agora divide com quem quiser usar seus espaços. É chão latinoamericano, chão de luta.


“Minha militância está nos livros”, ela costuma dizer. A entrada do Plebeu é um portal. A frase mais adequada para advertir os viajantes seria a mesma que Saramago usou na epígrafe do Ensaio sobre a cegueira: se podes olhar, vê. Se podes ver, repara. Para reparar direito uma visita não é suficiente. Nem duas. Nem dez. O ideal seria morar ali, no coração de Fortaleza, perto da Praça do Ferreira, respirando o mesmo ar que tantos livros raros. Sendo impossível, o jeito é ir muito e sempre.


Quando ela fala, essa força toda do Plebeu também está na sua voz. Estivemos juntas em uma palestra sobre mulheres e literatura e seu repertório de conhecimento, datas e lugares, tantos anos dedicados a uma honesta relação de amor com os livros fascinou a todos nós.


Adelaide me contou que foi a um restaurante em Portugal onde todos os pratos tinham nomes de lugares e pessoas da obra de Eça de Queiroz. Ao ler o cardápio, ela chorou. Testemunhava o atravessamento da literatura para a vida, isso que ela pratica, porque nada para ela anda longe da alma. É quase lei no mundo de Adelaide que tudo perpasse a vida deixando uma marca de força e revolução. Das pequenas às gigantescas.


Está cada vez mais claro: a amizade é a maior de todas as revoluções. Ao abrir as portas do Plebeu, extensão de sua alma, Adelaide vai ganhando mais e mais amigos. Do que serviria tantos livros assim, tanta sabedoria, sem ninguém por perto para admirar e dizer o quanto o universo que ela construiu é lindo e ilumina os nossos infinitos? Os feios, chatos e ególatras que me desculpem, mas aprender a viver o mundo como vive a Adelaide é fundamental.

Gabrielle Zaranza

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