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A biblioteca de Antonio Candido

2018-04-28 01:30:00

Ano passado estive na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP para o projeto A Voz do Escritor, a convite do professor Ariovaldo Vidal. Minha companheira de mesa foi Ana Luísa Escorel, autora do belo romance Anel de Vidro. Depois de ouvir uma análise aprofundada dos respectivos livros, feita pelo professor Ariovaldo, foi a nossa vez de falar sobre nossa voz narrativa.


Eu e Ana Luísa discordamos em quase tudo e saímos de lá celebrando o começo de uma amizade. Amigos não precisam concordar, precisam gostar um do outro. Nossas discordâncias tinham a ver com método de trabalho, exercício de escrita, relação com o mercado editorial, com todos os entraves e problemas que circundam a literatura. Modos diferentes de pensar e fazer literatura, cada uma em coerência com sua vida e formação.


Discordar é saudável. Enriquece os dois lados. Fortalece as certezas, desfaz equívocos. Parte do nosso atraso social e político do momento está justamente nessa impossibilidade de discordar sem brigas ou agressões de quem pensa diferente. Está também na violência da tentativa de fazer o outro mudar de ideia. Não precisa. Cada um na sua rota.

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Ao terminar o evento na USP, que muito me emocionou pela riqueza da conversa e das perguntas da plateia, almoçamos juntas e fomos a outro compromisso literário e editorial na Companhia das Letras. Foi quando ela me convidou para repousar um pouco na casa do seu pai antes de irmos ao lançamento do livro novo do Milton Hatoum. Um dia intenso merecia uma pausa.


O pai de Ana Luísa é o crítico literário Antonio Candido. Usei o verbo no presente de propósito: Antonio Candido é e será sempre, um dos teóricos da literatura mais importantes do nosso Brasil. Ele me acompanha há anos com seu olhar lúcido sobre a história da literatura brasileira e seu conceito de Sistema Literário. É minha base de pensamento sobre a nossa produção, a relação do autor com leitores e mercado. Além de um crítico lúcido e genial, escrevia muitíssimo bem.


Quando dei por mim, eu estava diante da biblioteca particular do prof. Antonio Candido, na sala de sua casa, cenário de tantas fotos e entrevistas. Ana Luisa aproximou-se dos livros e disse que sabia o quanto era importante para mim o que ela iria fazer. De luvas nas mãos, abriu a primeira edição de Grande Sertão: Veredas, autografada por Guimarães Rosa e me mostrou.


Vi as primeiras edições de Sagarana, Tutaméia, Primeiras Estórias e a alegria das dedicatórias ia aumentando. Que letra linda tinha Guimarães Rosa! Depois vimos as primeiras edições de Graciliano Ramos, Oswald de Andrade e de repente parte da grande força de literatura brasileira estava ali, viva na tinta daquelas canetas.


Pude ficar um pouco em silêncio, sozinha, diante dessa biblioteca. Agradeci. O dono da casa e a grande maioria dos autores daquelas obras preciosas estão mais vivos a cada dia. Imortal é quem atinge excelência na sua produção literária. Medalha, comenda ou cargo nenhum confere isso a um autor além da absoluta honestidade do seu projeto literário. Acho que o mestre Antonio Candido concordaria comigo. Que honra estar perto dele, mesmo poucos meses depois da sua partida. Que honra poder agradecer, em silêncio, pelo legado que nos deixou.

Gabrielle Zaranza

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