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Paixões literárias

2018-03-03 01:30:00

A vida de um leitor não é feita somente dos momentos da leitura. Há muita coisa que acontece nas outras horas. A forma como cada livro chega, por exemplo. Pode ser comprado, emprestado, presenteado, roubado, herdado. Pode ser um exemplar que apareceu sem saber de onde, esquecido em uma mesa de bar, enviado por engano. Algumas leituras são fruto da insistência de amigos: você precisa ler isso. Você tem que ler isso. Você não pode morrer sem ler esse livro.


Eu ouvi essas três frases da minha amiga Izabel Gurgel em 2010 falando do livro Seda, de Alessandro Baricco. Levei muitos anos para obedecer ao chamado e foi ela mesma quem me emprestou não só o Seda, mas também o Sem Sangue, do mesmo autor.


Li um depois do outro sem pausa e considero que a obra de Alessandro Baricco é minha nova paixão literária. Esse é outro aspecto da vida de um leitor: o arrebatamento por um determinado autor ou autora, que o coloca em um pedestal, assiste todas as suas palestras no Youtube, procura o site, as redes sociais, manda recados, às vezes até respondidos.

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Esses arrebatamentos fazem ter vontade de largar tudo e ler um livro atrás do outro, do mesmo autor. Baricco é músico de formação e isso é notável na beleza de sua prosa. Mesmo antes de abrir a primeira página sabemos que trata-se de uma história escrita com economia de palavras.


São livros finos, bem curtos. Seda tem sessenta e cinco capítulo com pouco mais de duas páginas, a maioria, mas não falta nada ali. Os personagens são nítidos, as ações, suficientes. Contraria a lógica de que o livro de respeito precisa ser volumoso. Que nada. Escrever bem é sobretudo saber cortar palavras e deixar a essência.


Sem Sangue é a história de uma mulher que viu seu pai e irmão serem assassinados quando era criança, mas foi poupada pelo seu algoz. Sua vida é uma série de vinganças, achando um por um os responsáveis pelo crime, até encontrar aquele rapaz que matou os outros, mas deixou que ela vivesse.


Seda conta a história de um comerciante francês que mergulha em uma aventura no Oriente, lidando com experiências e conflitos que seu trabalho proporciona. Nada de enredos mirabolantes, profusão de personagens e reviravoltas. Uma voz baixa que conta uma história com calma.


Quero ler mais livros do Baricco. A noiva jovem é seu lançamento mais recente no Brasil. Além de tocar e escrever, ele criou uma escola de Escrita Criativa na Itália, cujo nome homenageia Holden Caulfield, protagonista do Apanhador no Campo de Centeio, do Salinger.


Foi uma sorte ter a insistência da Izabel me levando a esse autor. O que todo leitor deve desejar é a sorte de ler os livros certos. Que eles venham como presentes, empréstimos, obrigação, não importa. Mas que sejam os melhores, que causem pequenas revoluções e despertem paixões literárias descontroladas que iluminem a vida.

 

Gabrielle Zaranza

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