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Quase verdade

2018-02-03 01:30:00

Existem leitores que não se conformam. Mesmo tendo em mãos uma obra literária de escrita sofisticada e cheia de desdobramentos, não conseguem evitar a curiosidade sobre as relações entre o autor e sua obra. Esse livro é inspirado na sua vida? Algum desses personagens é real? Você sofreu como essa fulana? Ou amou como aquela outra?


Quando as perguntas são dirigidas ao autor em carne e osso, o constrangimento é inevitável. Pobre Flaubert. Foi forçado a dizer quem era a mulher adúltera e desequilibrada da vida real que teria inspirado a criação de Emma Bovary. Ele teve que responder qualquer coisa e acabou dizendo que Madame Bovary era ele mesmo, o que só piorou a situação.


Por outro lado, há o contrário disso tudo: a autoficção. O termo foi usado pela primeira vez por Serge Doubrowsky em 1977 no seu romance Fils e significa que o autor assume que está, sim, contando parte da própria vida usando os elementos da construção literária. Os fatos são reais, mas os nomes e espaços podem ser trocados vez por outra.

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De tudo que já li no campo da autoficção, poucos textos me impressionaram mais do que o volumoso livro de contos Manual da Faxineira, de Lucia Berlin, publicado no Brasil pela Companhia das Letras. Essa autora americana morreu em 2004 e não viu sua coletânea ser escolhida como um dos melhores livros do ano nos Estados Unidos e traduzido para diversas línguas.


Lucia nasceu nos Estados Unidos, morou em várias cidades e países, lidou a vida inteira com uma mãe alcoólatra, passou por três casamentos, teve quatro filhos, várias internações em clínicas de recuperação e uma velhice ligada a um tubo de oxigênio. Para ganhar a vida, Lucia foi professora universitária e faxineira, dentre outras atividades. A narradora desses contos não tem a ilusão de salvar ninguém de nada.


A literatura que Lúcia produziu a partir disso tudo eleva o gênero da autoficção a um patamar que poucos alcançaram. Depois de sobreviver aos piores anos, ela decidiu escrever. Não como terapia, nem desabafo, mas apenas pelo prazer de lidar com os recursos oferecidos pela palavra. Não há romantização gratuita nem autopiedade, mas uma beleza que surge quando menos esperamos, como um olhar inesperado para o próprio reflexo:


“Pelo espelho, eu olhei para os meus próprios olhos e de novo para as minhas mãos. Manchas de velhice horrendas, duas cicatrizes. Mãos não indígenas, nervosas, solitárias. Eu via filhos, homens, jardins nas minhas mãos”


A vida que passou por suas mãos um dia virou literatura. Foram exatos setenta e sete contos para sessenta e oito anos. Fazer autoficção é, de certa forma, olhar o espelho e rever marcas. Essa parte é fácil. Difícil é transformar vida e memória em boa literatura como fez Lucia Berlin – que não viveu o suficiente para ver o que sua palavra teve o poder de realizar.

Gabrielle Zaranza

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