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Ateliê da Canção

2017-12-05 01:30:00

Uma vez ouvi da professora de yoga Ved Arora que uma das coisas que mais pode ajudar uma pessoa idosa é ouvir as músicas de que gostava na infância ou na juventude. Canções podem guardar réstias de tempo, rosto de pessoas, o cheiro de um lugar, um sentimento bom.


Cada vida tem uma trilha sonora. E cada um de nós deveria ter essa lista de músicas preferidas bem ao alcance da mão, como um remédio em casos de emergência. Tipo extintor de incêndio, bombinha para asma, tábua de salvação. É preciso criar a relação de músicas que nos salva das tempestades e guardá-la na carteira.


Semana passada, lembrei-me desse ensinamento da Ved enquanto conversava com a instrumentista, cantora e compositora Bárbara Sena. Por um acaso do destino, sem planejar, ela foi convidada a tocar para um adorável senhor idoso a lista das músicas preferidas dele uma vez por semana. Assim começou uma nova vereda na sua vida de artista. A família reúne-se nesses momentos de cantoria, e o repertório agrada a todos. Desperta lembranças, reconecta pais, mães, filhos e filhas.


A sabedoria da Ved e a descoberta da Bárbara estão explicadas no documentário americano Alive Inside. Dirigido por Michael Rossato-Bennett, mostra o benefício imenso da música no tratamento de pacientes com Alzheimer, caso a caso. Homens e mulheres que mal se comunicavam redescobrem o prazer dos sons e das palavras depois de receber um fone de ouvidos conectado a um iPod. A música é arte vivificante, disse o neurocientista Oliver Sacks citando Kant.


Algumas vezes, os idosos recebem seu trabalho em estágios de muito esquecimento, até dos nomes dos parentes mais próximos. Pouco a pouco, a música vai buscar palavras bem longe. E eles vão lembrando episódios que fazem rir, os rostos ficam mais vivos, as conexões da memória se fortalecem de novo ao ritmo da canção. Em alguns casos, os nomes surgem, as cenas renascem. É a força da música.

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A Arte tem apresentado um desafio nesses tempos de sombra, o de reencontrar seu lugar no movimento de olhar para o outro. É o convite para uma mudança da condição muitas vezes solitária e atormentada dos criadores para um encontro com quem necessita tanto escutar uma canção.


Talvez as pessoas sintam falta da música em seu estado mais puro e forte, cantada ao vivo, por alguém bem perto. É gesto de amor, por exemplo, encomendar uma serenata para alguém que se ama. Ou para uma rua inteira cantar junto. Transformar um poema antigo em música e presentear quem merece. Ou visitar alguém cujas memórias já estão apagadas para enxergar novamente a cor e o som das lembranças conduzida pelas notas musicais.


Realizar esse sonho é parte do trabalho de Bárbara Sena, que eu batizei com orgulho de Ateliê da Canção. A ideia é levar a melhor música possível aos corações que precisam dela. Com seu parceiro Valdo Aderaldo, um dos nossos compositores mais brilhantes, esse som honesto e grandioso ajuda a quebrar as geleiras desses tempos de egoísmo


E se você pudesse encomendar um show com dez músicas da trilha sonora da sua vida, quais escolheria? E quanto de alegria você poderia receber depois de ouvir e cantar todas elas?

Adriano Nogueira

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