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O farol da escrita

01:30 | 14/11/2017

Desde o dia em que eu e os vinte e nove autores deste livro estivemos juntos na mesma sala de aula pela primeira vez, nossas vidas foram modificadas para sempre.

Consigo ver como se fossem as cenas de um filme, cada um chegando ao auditório da Livraria Cultura com um sonho diferente - porque somos, sobretudo, sonhadores incorrigíveis.

Do meu lugar eu conseguia ter a visão total do caleidoscópio de rostos, corpos, sotaques, idades e personalidades que esperavam de mim ser a voz que os conduziria a realizar o sonho de construir narrativas. Uma imensa e prazerosa responsabilidade que assumi com a alma inteira. Minha missão era fazer com que cada um escrevesse o melhor dentro das suas possibilidades e sem repetir fórmulas, sem engessar o seu texto, com todo respeito ao estilo de cada um.

Alguns queriam escrever por um desejo intelectual de falar sobre assuntos importantes em suas vidas. Outros tinham uma necessidade tão grande de contar um história que mal sabiam explicar o porquê. Apenas precisavam escrever. Aos poucos fomos vivendo experiências de aprendizado e mergulho no fazer literário. Aprendemos sobre Teoria da Narrativa, lemos em grupo, discutimos obras e autores, compreendemos a realidade do universo da produção literária brasileira.

Quando o processo de escrita dos contos começou, algo muito forte aconteceu. A medida em que uns liam e comentavam os projetos dos outros, deixamos de ser trinta pessoas para virarmos quase trezentas. Nós e os personagens passamos a viver juntos, emaranhados. Tanto os personagens dos contos como dos projetos de romances dos alunos passaram a coexistir e daí pra frente não tivemos mais controle do dínamo da criação que nos motivava.

O Ateliê de Narrativas teve uma carga horária de oito aulas com quatro horas, cada uma. Porém, foi muito mais do que isso. Incontáveis encontros, cafés, pizzas, rodadas de cerveja, conversas e risadas fizeram parte da nossa formação. Desentendimentos também, várias discordâncias literárias e muita luta para salvar personagens da morte - ou apressar o seu fim, em alguns casos.

Colecionamos tantas piadas internas e situações engraçadas que poderia render outro livro. Um filme sobre nossa história também seria de impressionar. Há uma coincidência que marca esse encontro: a maioria dos alunos chegou ao primeiro dia de aula saindo ou tentando sair de uma dor imensa trazida pela vida. Também fomos ombro amigo uns para os outros, pois quem vive sem doer? E quem vive sem sofrer até perder as forças para depois buscar a vida de volta?

A maior narrativa que escrevemos foi a história de uma amizade que nos fortaleceu e ensinou. Do meu lugar de professora, sinto muito orgulho de cada um desses autores. Eles e elas sabem exatamente do meu profundo carinho e do quanto sou grata pela confiança depositada em mim na realização de tantos sonhos.

E chegamos aqui, somos os trinta pais e mães de um sonho chamado Farol. Esse livro é mais que um objeto de papel e tinta. Ele é o testemunho do que talvez tenha sido um dos melhores períodos das nossas vidas. A boa notícia é que esse tempo bom não tem data para acabar. Seguiremos juntos, agora de mãos dadas com leitoras e leitores que estão chegando para viver essa alegria conosco.

Sejam todos bem vindos ao nosso pequeno reino. Aqui nós sonhamos e somos felizes.