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Donos absolutos do tempo

2017-11-21 01:30:00

“Desejamos que haja mais ocasiões para estarmos juntos e partilhar do manjar supremo que é a amizade”, disse Saramago a Jorge Amado em uma de suas cartas. Foram seis anos de correspondência íntima e pessoal que fortaleceu os laços de duas almas emblemáticas da literatura em língua portuguesa.


O livro Com o mar por meio – uma amizade em cartas, publicado pela Companhia das Letras, é uma ponte sólida entre Salvador e Lanzarote, provando mais uma vez que a literatura consegue realizar o impossível – incluindo essa obra de engenharia imaginária, que se torna mais sólida a cada página do livro.


A primeira grande beleza desse encontro é a Língua Portuguesa como pátria de uma grande amizade. Esse tema, o Português, é recorrente nas conversas trocadas graças ao serviço do fax e dos correios, mas sem grandes aprofundamentos. Estamos falando aqui de uma correspondência muito amena, centrada em fatos do cotidiano e em frases e palavras de carinho nas duas vias.


Não há pretensões de florear o cotidiano, é tudo muito honesto ali. Trata-se dos problemas de saúde de Jorge, das viagens, questões financeiras e políticas, as coisas da rotina, as agendas exaustivas, beijinhos por todos os lados, votos de Feliz Natal, a vida real, dia após dia.


E os prêmios. Assunto onipresente, os dois discutiam os ganhadores do Prêmio Nobel ano a ano. Ambos com a expectativa e o desejo de ganhar um dia.


Combinaram, inclusive, o pacto de um convidar o outro para a cerimônia do primeiro que fosse eleito pela Academia Sueca. José Saramago foi contemplado, mas Jorge não pode ir devido ao seu estado de saúde, a vista fraca e o coração frágil.


A segunda beleza do livro é o fato de que há uma igualdade de amor e comunicação também entre Zélia e Pilar, duas mulheres fortes e presentes na carreiras dos maridos de maneira decisiva. As cartas são endereçadas a Pilar e José e à Zélia e Jorge. Raramente falam de si sozinhos. É sempre “nossa viagem”, “nossas férias”, “nossa casa”.


As graças escapam, vez por outra. Há o curto circuito que queima o fax e o videogame de Jorginho, neto dos Amado e que preocupa os amigos de Lanzarote. Há também os recados engraçados das esposas, bem como as angústias divididas. Em uma das cartas, Saramago conta a dificuldade de escrever Ensaio sobre a cegueira. Os dissabores também aparecem, bem como os conflitos com colegas de profissão.


O ponto alto da troca de cartas está no texto de Saramago sobre sua viagem para Salvador. Ele usufruiu das coisas mais lindas da Bahia. Conheceu Carybé, comeu a comida de Dadá, ouviu Caetano cantar em Santo Amaro, conversou com Gilberto Gil e sorveu a paz de Dona Canô.


Teve tempo ainda para andar pelo Mercado Modelo com sua editora Lilia Schwarcz, da Companhia das Letras. Sobre os encontros como os homens e mulheres do lugar, ele escreveu: “Assim são as coisas nesta parte do mundo, onde o importante não é o que se vende e o que se compra, mas sim sabermo-nos vivos, ao menos por hoje, donos absolutos do tempo, e este tempo empregado na festa que é a conversação e a comunicação humana”.


Depois de ler esse livro, tomei a decisão de modificar a minha biblioteca. Vou transferir os livros de Jorge Amado para a prateleira onde estão as obras de José Saramago. Não é justo separar dois amigos. Até o mar sabe disso.



Adriano Nogueira

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