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VERSÃO IMPRESSA

A resistência

2017-11-28 01:30:00

Talvez poucas artes sejam tão fluidas e de difícil definição quanto a Literatura, em todas as suas instâncias apesar de parecer tão simples, a primeira vista. Afinal, dizem alguns, livros são feitos de uma seleção de palavras que estão no dicionário de sua língua matriz, ao menos a maioria deles. Isso é o pedaço que está visível aos olhos.


A boa literatura está no invisível, exatamente no que não aparece e é tão difícil de apontar. A diferença entre um livro bom e um ruim não está somente na escolha das palavras do dicionário e na ordem como são dispostas frase a frase. Há muito mais em jogo.


A escritora Noemi Jaffe disse que o “escritor deve tratar a palavra como o escultor trata a pedra e como o pintor trata a tinta”. A palavra é um material de trabalho que precisa sair do dicionário, tocar a pele, passar pelo pensamento e só assim pousar no papel para virar outra coisa. É essa travessia que faz Literatura.


Mais que a biografia e a formação, é preciso conhecer o projeto literário de um autor, ou saber se ao menos se ela ou ele tem um. Os bons sempre têm. Em Português, escritor pode ser qualquer pessoa que digita e produz textos. Autor é quem cria o seu lugar com palavras. Uma casa, um castelo, a depender do alcance do seu talento.

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É assim que torna-se possível compreender porque Julián Fuks é um grande escritor e porque A resistência, esse livro de 139 páginas e modestas pretensões de fabulação, mereceu todos os prêmios e reconhecimentos que tem recebido.


Há algo forte na prosa de Julián que nos conduz ao lugar onde mora o seu projeto literário. Mais que sua biografia, é isso que importa. Não nos interessa como foi a vida e a família de Julián, ou o que seu irmão pensa sobre o livro inspirado na sua história e origem, mas o que ele fez com isso e a parte que podemos ver dessa elaboração.


O projeto literário de Julián Fuks implica em um forte compromisso político e isso tem sido reforçado em suas entrevistas. A resistência é um livro que começa com um zoom. Irmãos dentro de um carro, em um quarto, perto dos pais. Pouco a pouco a lente é aberta para uma realidade onde cabem muitas pessoas: a ditadura na Argentina, o exílio, a adoção, a família. Do jeito de franzir a testa ou dos olhos talvez marejados do irmão parte uma fluxo de associações, cenas e pensamentos que colocam o leitor muito perto dos personagens e esse efeito é coisa que só uma grande literatura consegue produzir.


Há um trecho especialmente comovente, quase ao final do livro: “Se me sento à mesa às nove horas, sem jantar, sem fome, se esta noite minha solidão ganha a forma dessas quatro cadeiras vagas, é porque queria poder ouvir, ainda uma vez, essas histórias”.


Não importa em qual família, em qual país, com qual história. Há quase sempre uma mesa onde se gostaria de estar. Ao ler, eu lembrei das tantas mesas que me fazem falta. Você lembrará das suas. Foi Julián Fuks que nos conduziu até elas. Isso é Literatura.


Adriano Nogueira

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