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A conferência dos pássaros

2017-11-07 01:30:00

Fui convidada para um almoço. Não era aniversário de ninguém, nenhuma data especial. Sem pressa, sem objetivos, sem prazos, tampouco cerimônias. Era um almoço entre amigos, que acontece todas as sextas-feiras. Não fecharíamos negócios, não pediríamos favores, não devíamos nada uns aos outros. Estaríamos ali por algumas horas, acionando uma pausa no tempo para usufruir do prazer de conviver. Aceitei o convite e cuidei de pensar em um presente para a dona da casa. Um livro, certamente. Embalei a lembrança e aguardei a hora de ir.


O almoço aconteceu em um apartamento que tem dois braços abertos: a janela e a varanda, tomados pelo verde. Em um braço, a rede convida para deitar e olhar para a Praça das Flores, nossa pequena ilha de copas altas, um suspiro de alívio em memória de tantas árvores que Fortaleza já perdeu. No outro braço, as plantinhas da dona da casa e uma armadilha de amor para os passarinhos. Eles não resistem ao encanto, são assíduos nas visitas, bebem água e pousam nas plantas com a alegria de quem quer bem.


É dentro desse abraço que cabem o sofá confortável, os livros por todos os lados, as fotos e as lembranças que preservam os amores ausentes sempre em casa. Cabem os hóspedes que precisam de uns meses de colo, os amigos dos filhos. É uma casa de mãe, com todo o poder que essa palavra tem.


Foi dentro desse abraço que entramos nós, os convidados para o almoço nessa sala iluminada pela luz de Fortaleza.

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Pouco a pouco conversávamos e logo já estávamos todos enredados em uma teia de livros e coincidências, que começaram antes daquele dia. Eu já cantei várias músicas que o Celso compôs. A Valeska já leu um dos meus livros. Assim como a Cecília, que por sua vez me deu uma boa ideia que já estou colocando em prática. O Marcus contou uma graça e a partir disso a conversa virou um riso só. Depois veio o Eudes e suas histórias de amor com a Galeara, nossa doce anfitriã. Poderíamos ficar o resto do dia nesse papo, uma versão comédia rasgada do O anjo exterminador, do Buñuel.


O presente que levei foi A conferência dos pássaros, do Peter Sis. Ele conta a história de quando as aves estavam sofrendo com tanta revolta e disputas no mundo. Elas resolveram viajar em busca do poderoso Rei Simorgh, que tem resposta para todas as perguntas e saberia a solução para tanta infelicidade.


A jornada foi guiada por um dos pássaros, que narrou e dividiu o caminho em sete vales: da Procura, do Amor, da Compreensão, do Desapego, da Unidade, do Deslumbramento e por fim, o Vale da Morte. Só depois de atravessar tudo isso eles chegaram onde queriam, enxergaram o que precisava ser visto.


Estamos mesmo perdidos nesse século dos absurdos e só nos resta voar em bandos, para pensarmos juntos nas estratégias de sobrevivência. Agora eu entendi porque a Galeara cultiva o hábito de almoçar com amigos todas as sextas-feiras no abraço da sua casa. É a sua forma secreta de organizar uma Conferência dos Pássaros. É para voar mais alto.


Adriano Nogueira

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