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Lima

2017-10-17 01:30:00

Todo biógrafo pergunta ao seu biografado algo sobre seu tempo. Essa frase é da historiadora e antropóloga Lilia Moritz Schwarcz ao falar do livro Lima Barreto Triste Visionário, lançado pela Companhia das Letras. Uma das perguntas que nós, leitores, podemos fazer ao personagem é urgente: nós, brasileiros, já entendemos bem quem somos?


Creio que ainda não. Toda a obra monumental da Lilia nos conduz à busca por essa compreensão. Seria absolutamente saudável para todo brasileiro, por exemplo, ler outro livro de Lilia, Brasil, uma biografia. Dentro dele estamos todos nós. A sua leitura nos tira do clichê superficial, essa condição de frutos de uma mistura de raças e aprofunda o olhar para isso. Se somos mistura, como lidamos com isso? Como nos apresentamos? Por que ainda alternamos ônus e bônus da nossa identidade para a cor da pele?


Depois da biografia do Brasil, Lilia apresenta agora a vida de um homem, Lima Barreto, que tem muito a dizer sobre essa incompreensão das nossas verdades históricas. Eu imagino essa historiadora ajustando o foco de um binóculo, saindo da imagem monumental de um país inteiro para olhar apenas nos olhos de um homem que representa tanto do que precisa ser dito nos tempos atuais.


Lima foi funcionário público, um amanuense com caligrafia ruim. Um escritor que produziu a si mesmo enquanto escreveu uma obra atemporal, que merece ser lida e estudada. Lima Barreto chegou a ser internado, ver seus antecedentes familiares de tuberculose e alienação pesando contra ele em uma anamnese de admissão no hospital.

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As duas palestras de Lilia Moritz Schwarcz em Fortaleza estavam lotadas. Uma plateia atenta e completamente concentrada compreendia Lima Barreto pouco a pouco e, dessa forma, entendia mais sobre o que é o Brasil. Segundo Lilia, 40% dos homens e mulheres que saíram de África em condição de escravizados vieram para o Brasil. Lima Barreto veio de um deles.


Durante toda a sua fala, Lilia não usou a palavra escravo. Sempre dizia escravizados. A mudança de uso desse vocábulo já nos leva a uma nova condição diante da história. Escravo não é profissão, não é status aceitável. É um ato de violência que deve ser conjugado no Particípio. Escravizados, sim.


Lima Barreto é um personagem intenso da nossa história. Atormentado e talentoso, insatisfeito e visionário. Como disse Silviano Santiago, “o leitor e a leitora naufragam na vida de Lima Barreto para ressuscitarem Outro. O mergulho na obra de Lilia Schwarcz nos leva a sermos brasileiros mais conscientes e mais capazes de reparar algumas das nossas feridas.


Adriano Nogueira

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