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Todo mundo precisa de uma ilusão

2017-09-05 01:30:00

Ela não consegue se conformar com a ideia de ler um livro sozinha. Sai espalhando por aí, contando o comecinho, divulgando a beleza. Fala com gosto e entusiasmo, abre a boca ao máximo, cada palavra é dita na sua completude. Enquanto explica, dá um jeito de incluir Uruburetama em alguma comparação ou metáfora pelo meio do caminho, mesmo que o livro seja sobre o Japão. Acredito que seja um truque inconsciente de retórica, evocando a aldeia como retrato de mundo.


Quando o interlocutor em questão está rendido, ela empresta o livro, sim. Conheço leitores que odeiam emprestar. Ela o faz com prazer. Acontece que as laterais das páginas têm seu nome riscado: Izabel. Se alguém ficar com ele, de propósito ou pela força das circunstâncias, jamais esquecerá a quem pertence de fato. Além disso ela pede que o locatário escreva o seu nome e a data da leitura na última folha do livro. Ela pede e repete no mínimo cinco vezes, antes que você se afaste.


Semana passada fui à casa da Izabel e levei um livro emprestado. Era o Seda, do italiano Alessandro Baricco. Ela me falava dessa narrativa desde 2009 e já estou tratando a leitura como um ritual quase sagrado, merecendo um chá, um bocado de silêncio. É um livro curtinho, ela disse logo. Adoro o Baricco porque ele só escreve livros breves e profundos.


Olhei a lista das pessoas que já leram o livro da Izabel antes de mim. Conheço alguns, de outros nunca ouvi falar, mas agora parece que estamos todos juntos na sala da casa dela comentando o livro, ao mesmo tempo. É uma espécie de clube do livro espiritual. Não há um encontro físico, nem sabemos o rosto da maioria, mas agora somos parte de uma lista do livro da Izabel e isso tem o peso de uma irmandade em tempo suspenso.


Nunca ouvi Izabel falar do tempo com angústia. Nunca a ouvir queixar-se das incertezas do futuro, essa mania besta que temos. Ela fala do hoje, do que é presente e vivo. E fala dos seus pais, de Uruburetama, mata a gente de rir. Fala das coisas sem data, conta histórias sem a menor necessidade de localizar no calendário. A sua casa é um reflexo disso. Estar lá pode ser 1960, 1990, 2020. O que vale é o olhar dela capta e aprofunda na arte, na literatura, nas pessoas e nas situações.


Lembro nitidamente do dia que conheci Izabel e acho que lembro muito bem de todos os nossos encontros. De quando organizamos um lançamento de livro e ela sugeriu servir apenas comidas brancas. Ou de quando eu estava tristíssima e Izabel admirou-se, dizendo que quarta-feira é dia de felicidade e eu não poderia ficar daquele jeito, que era quase um desaforo. Eu não conheci sua mãe, mas guardo uma frase dela no meu relicário: todo mundo precisa de uma ilusão.


Izabel vive em uma casa tomada por essa frase. Há a ilusão da pintura, da escultura, das fotografias, da literatura, do mapa mundi – a utopia de tentar entender nosso planeta em linhas e traços. Todo mundo precisa de uma ilusão e de uma Izabel, pra lembrar das coisas que valem a pena no mundo. A seda, os livros, as paredes completamente preenchidas, os azulejos e os amigos que povoam suas histórias. Oxalá eu tenha muitas quartas-feiras para estar com ela, comer comida branca e esquecer que horas são, que dia é hoje e o que será do amanhã. O tempo da ilusão é que nos salva.


Adriano Nogueira

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