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Religare

2017-09-12 01:30:00

No final do mês de agosto, uma foto espantosa circulou nas redes sociais. Um grupo de Xavantes do município de Água Boa, em Goiás, vestia roupas brancas. As índias usavam sutiã, blusa, saia e sandálias.

Todas de cabeça baixa. Nenhuma olhava para a lente que capturou esse momento. Nenhuma das mulheres sorria.


Por trás do grupo, um pastor orgulhoso abria os braços de contentamento pelos novos membros que sua igreja recebia.


A foto é o registro de um batismo. A matéria publicada no site da BBC detalha o evento e nos assombra com a associação direta ao ano de 1549, quando os jesuítas chegaram ao Brasil. Era a mesma missão de purificar, catequizar, domar e controlar pela imposição de uma nova fé.

Purificar, porque não parecia limpo aos olhos dos europeus adorar outros deuses.


Estamos no ano de 2017 e mesmo assim ainda existem grupos religiosos entrando em aldeias indígenas para destruir uma herança mística e mítica. Sem direito algum. É uma caça por almas, por números, engordando uma estatística infundada e que não tem propósito algum além da ingênua noção de controle.


Questionar e julgar a fé do outro é violência, em qualquer âmbito. O lugar da fé é um dos nossos recônditos mais íntimos. Qualquer conversa sobre o assunto precisa ser cercada de respeito pelo sagrado de cada um.


No meu sagrado particular cabe muita fé, de várias crenças. Semana passada eu dancei o Torém com os Tremembés de Almofala. Pedi licença e entrei na roda, com minha filha nos braços, dançando e cantando as músicas que aprendi antes de ir graças à cantora Marta Aurélia. Foi um forte reencontro com os Encantados.


Ao longo da vida escolar, aprendemos a ver os índios como o povo de um pré-Brasil, que só começa com a chegada dos colonizadores. Pensar que começamos tudo o que somos em 1500 é como tirar um filho dos braços da mãe logo depois de nascer e levar para longe. Um corte brusco e traumático. Uma interrupção do contato com o que o pesquisador Roberto Gambini chama de Alma Ancestral do Brasil.


Ainda segundo Gambini, há indícios da presença de povos indígenas no Brasil mais de trinta mil anos antes do descobrimento. E entender como eles viviam, se relacionavam com a natureza, o corpo, a fé e os mitos é compreender o que deveríamos ser ao aceitar essa herança.


Dançar com os Tremembés e pedir a proteção dos Encantados foi um rito de retorno. Feliz por eles e sua alegria de celebrar, tristíssima pelas tribos brasileiras cabisbaixas diante dos projetos de catequese, tantos anos depois. A origem da palavra religião vive sendo repetida: religare.

Ligar com o alto, com o Deus de cada um. Um fio invisível que sai de dentro, um altar íntimo para santos, Encantados, Orixás, anjos, Espíritos. Não há certo ou errado. A fé não é algo que se impõe e classifica por fora, mas que acende, serena e forte, por dentro.

Adriano Nogueira

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