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VERSÃO IMPRESSA

Ofício de Escrever

2017-08-15 01:30:00

Frei Betto publicou mais de sessenta livros em quarenta e cinco anos. Escreveu sobre religião, ciência, culinária, política, história, movimentos sociais, entre tantos outros temas. Direcionou seus textos para crianças, jovens e adultos. Usou uma linguagem clara para tratar de assuntos complexos. Passeou pelo romance policial, entrevista, crônica e ensaio, sempre com o tom seguro de um narrador que não sente impedimentos no seu processo de escrita. Sua palavra navega serena como um barco no rio do pensamento.


Depois dessa trajetória profícua e premiada no Brasil e no exterior, Frei Betto dedicou um projeto inteiro a refletir sobre sua missão. Frade dominicano, emprega depois do nome as iniciais OP, Ordem dos Pregadores, aqueles que levam a palavra de uma parte a outra. Seu novo livro, Ofício de Escrever, é um conjunto de ensaios que olham para a leitura e a escrita com profunda seriedade e admirável respeito à inteligência do leitor.


“Escrevo para ser feliz” é sua resposta à primeira pergunta que o texto propõe, as razões da sua dedicação ao ofício de escrever. Por que tantos anos dedicados a um trabalho que ainda não encontrou, no Brasil, uma condição justa de sobrevivência? Pela felicidade, pelo prazer, segundo ele, que cita Roland Barthes para reforçar a relação de genuína alegria que a carpintaria das palavras proporciona. “Aos candidatos a escritor, aconselho este critério: se consegue ser feliz sem escrever, talvez sua vocação seja outra. Um verdadeiro escritor jamais será feliz fora deste ofício.”


O livro de Frei Betto passeia por dentro e por fora do texto. Em alguns capítulos, ele aproxima-se da intimidade com as palavras, conta seus segredos de estilo, sua relação impiedosa com os verbos auxiliares e a divertida caça aos gerúndios.

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Por todo o livro, está impressa a verdade mais certa para quem deseja escrever: todo bom escritor é um grande leitor. Frei Betto cita T.S Eliot, Adélia Prado, Cervantes, Shakespeare e tantos outros. Ele nos surpreende e emociona ao louvar o poema mais bonito de Gilberto Gil, Se eu quiser falar com Deus.


Condizente com sua formação e trajetória, ele também discute aspectos sociais e culturais que nos entristecem como brasileiros: os baixos índices de leitura, o custo alto dos livros, o esvaziamento dos discursos que chegam aos jovens. Há também sua opinião sobre os conceitos de literatura engajada e autor engajado, muito importante para o momento atual.


Há cinco anos, trabalho com formação de novos escritores. O Ofício de Escrever entrou na minha lista de livros recomendados para quem deseja transformar ideias em palavras. Não é um trabalho fácil. Exige disciplina, que Frei Betto tem de sobra. Em alguns dias do ano, ele não marca nada, não faz palestras, não aceita convites. Apenas escreve. Dedica-se exclusivamente a pousar uma palavra depois da outra, como um ourives pinçando pedras preciosas.


Do que mais gosto desse livro é do quanto Frei Betto reforça a consciência de que escrever é um trabalho. Que exige preparação, responsabilidade e técnica. E que tem, como resultado, uma felicidade que poucos outros ofícios proporcionam. Faço coro às palavras de Frei Betto: “Salvemos a literatura”. Sobretudo, a que mora em todos nós.


Adriano Nogueira

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