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O sonho euseliano

2017-08-01 01:30:00

Nos seus vinte e sete anos de existência, o Cine Ceará ocupa mais da metade da minha vida e, provavelmente, a vida inteira de muitas pessoas na cidade. Poucas iniciativas culturais em Fortaleza conseguem permanecer, crescer e melhorar com o tempo.


Relembrar minha relação com o festival em uma crônica é o mínimo que posso fazer em agradecimento por tanta perseverança. Tudo o que um evento cultural desse porte deixa para a cidade é um benefício coletivo de fomento, formação de plateia, criação de novas frentes de trabalho para algumas gerações de profissionais do cinema.


As primeiras lembranças que tenho são ainda da infância. Mais que cenas, são ecos de várias conversas sobre cinema na casa de meu padrinho, o pesquisador de cinema Ary Bezerra Leite, grande amigo do cineasta Eusélio Oliveira. Toda frase que tinha o nome do Eusélio, toda conversa com ele era tomada por um entusiasmo, uma energia imbatível.


Alguns anos depois, como aluna da UFC, conheci a Casa Amarela, a tal casa do Eusélio tão falada pelo Ary. Estive lá para assistir a filmes da Mostra Rachel de Queiroz, para ter aulas de Cinema Brasileiro com Firmino Holanda e para acompanhar a programação do Cine Ceará, muitas vezes. Mais recentemente, foi lá que matriculei minha filha em um curso de Cinema de Animação.


No ano 2000, participei do Cine Ceará para apresentar um curta em uma mostra paralela. Era um documentário chamado A casa, usando imagens antigas da Fundação Casa Grande, em Nova Olinda. Uma estrutura narrativa bem simples apresentava as imagens descritas e explicadas por dois meninos que faziam parte do primeiro grupo de crianças do projeto.


Foi um registro histórico e afetivo, um exercício de edição com eles, produzido em conjunto e que me deu a alegria de estar no festival como realizadora pela primeira vez.


Outro momento de grande emoção foi reencontrar, no festival, a querida Maria Julia Grilo Tadeo, diretora acadêmica da EICTV, importante centro de formação de cineastas latino-americanos em Cuba que recebeu vários cearenses. Foi lá que fiz o curso de roteiro com Gabriel García Márquez, com a ajuda da querida Maria Julia.


Maria veio como homenageada do festival. Vimos juntas um documentário sobre a terrível Operação Peter Pan, que separou centenas de crianças cubanas de seus pais, na presença da diretora Estela Bravo, um momento comovente. Essas são só algumas lembranças, entre tantas.


Este ano eu gostaria de estar lá todos os dias e acompanhar a disputa pelo troféu com o nome mais bonito dentre todos os festivais brasileiros: Mucuripe. Segurar um evento desse porte por tanto tempo é uma tarefa hercúlea. A Casa Amarela e o Cine Ceará carregam uma energia multiplicadora, e acho que isso justifica tamanha coragem.


Em nome da grande amizade que meu padrinho Ary Leite tem pelo Eusélio Oliveira, quero aqui louvar a sua vida, que perdura.


Um dos projetos culturais mais sólidos de Fortaleza nasceu dele, persiste no trabalho de seus filhos e de tanta gente que vive, hoje, sonhando o mesmo sonho euseliano. Eu, inclusive.


Adriano Nogueira

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