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Meu coração em Cabo Verde

2017-07-04 01:30:00

Parando para pensar, a vida é mesmo essa coleção imensa de dias normais, não catalogados, vividos às pressas, cumprindo obrigações e rotinas. A felicidade chega entre eles, nas brechas. No fio de contas desses dias, há um relicário de datas que revolucionam, alteram a rota, mudam tudo. Chegam por escolha ou por surpresa. O acaso é um bom amigo da felicidade. Há sempre o dia, a hora, o minuto exato em que as transformações começam a acontecer.


Tentei buscar na memória qual teria sido a data mágica em que comecei a ministrar oficinas de escrita criativa. Se hoje vivo cercada de escritores em formação, se dedico meu tempo de trabalho a dividir o que sei, a ouvir estórias, ler textos, orientar e aprender tanto com meus alunos, certamente há uma data-mãe no meu calendário que eu precisava encontrar e louvar.


Pois digo que foi em um dia de sexta-feira, 2 de outubro de 2009, na Ilha de Santiago, Cabo Verde, onde ministrei minha primeira oficina de escrita. Eu estava no Centro Cultural Brasil - Cabo Verde, da Embaixada do Brasil. Marilene Pereira, uma mineira em Cabo Verde, organizou os eventos e ensinou-me muito sobre esse lugar mágico. Sinto, às vezes, que nunca saí de lá.


No último dia, a escola que me visitou traria meninos e meninas na faixa de doze anos de idade no período da tarde e lancei o desafio: a escrita de um texto com tema predefinido: o djéu de Santa Maria. Na cidade de Praia, há um pequeno ilhéu com uma construção abandonada; com a maré baixa, é possível chegar lá andando.


Propus a construção de um enredo assim: um personagem (ou um par, um grupo) iria até o ilhéu na maré baixa. Porém, distraído, não notaria que a maré subiu, que não havia barco e que teria de passar a noite lá. O que aconteceria?


O grupo inteiro conseguiu escrever. Surgiram onças, fantasmas, histórias de amor. Grampeamos as folhas de ofício dobradas, eles fizeram capa com os seus nomes para uma galeria de fotos que guardo até hoje, com amor imenso.


Cabo Verde é tão importante para mim que eu sempre penso em estar lá de novo. Na primeira visita, comecei esse trabalho que consiste em doar o que é mais importante para mim, a literatura, dividir tudo que sei. Mas também aprendi muito. Conheci a música de Mayra Andrade, a areia escura da Cidade Velha, as cores do Sucupira, tomei café com o poeta Arménio Vieira, Prêmio Camões de Literatura, no Café Sofia. Conheci a própria Sofia, amiga da Neda, minha irmã, que me recebeu na ilha.


Na segunda vez, fiz palestra na praça, acendi vela, visitei o Campo de Concentração do Tarrafal, comprei sibitchis. Sentada na livraria Nhô Eugênio, que visitei diariamente, recebi a prova da capa do meu romance A Cabeça do Santo, que tem Cabo Verde como cenário, personagem e tema. Tendo sido publicado na Inglaterra, nos Estados Unidos e na França, tenho imenso orgulho de ter levado Cabo Verde para vários leitores do mundo, na minha literatura.


Essa crônica é minha declaração de amor a Cabo Verde, ao dia 2 de outubro, é um pedido para que Deus sempre me faça voltar à ilha, às ilhas, ao som da Mayra, ao sorriso da Sofia, à literatura africana, ao encantamento daquele chão.


Adriano Nogueira

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