PUBLICIDADE
VERSÃO IMPRESSA

Gran Circo Cariry

2017-06-27 01:30:00

Rosemberg Cariry acaba de lançar um filme novo. Chama-se Os pobres diabos e é um poema. Daqueles curtos e exatos. “É um filme muito simples”, ele disse na pré-estreia, o que é uma qualidade clara desse trabalho. Acredito mais nisso, nos filmes simples, que olham para algo com calma e demoradamente, que cumprem o que pretenderam fazer.


Esse nome, Cariry, está na minha vida desde o começo dos anos 80. Rosemberg e o Livreiro Gabriel tiveram uma pequena editora, a Nação Cariry. Foi sob esse selo que publiquei meu primeiro livro, aos oito anos de idade. É claro que não lembro absolutamente nada das circunstâncias. O que guardei disso foi a informação de que Gabriel e Rosemberg foram meus primeiros editores.


Mais de trinta anos depois, reencontramo-nos na certeza e na peleja de levar uma vida dedicada à arte. Eu escrevo livros, os Carirys produzem, escrevem e dirigem filmes. Persistimos em solo brasileiro, cearense, cada vez mais árido para quem vive de arte.


É no chão seco e rachado de um pedaço do Aracati o palco da história que Rosemberg nos conta. O Gran Circo Teatro Americano chega à cidade, para tentar mais uma vez a sorte de sobreviver. Vejam bem: a palavra é sorte. Como se sobreviver fosse mesmo algo que ninguém garante a ninguém, nesses pedaços ermos do mundo.


Os artistas montam a tenda, arrumam as pequenas moradias, improvisam cozinha, quarto, sala, altar. Em uma das primeiras cenas, o grupo de treze recria a Última Ceia de Jesus Cristo, e isso já nos leva a intuir que os heróis terão dificuldades para cumprir sua jornada coletiva.


Os dias passam no calor, no trabalho e na desesperança. A deles, a do povo ao redor; a crueldade da pobreza extrema. Pois, se a vida fosse só isso, só mesmo o dinheiro que se ganha, aquelas almas estariam condenadas à eterna morte. Mas, ao contrário, estão todos vivendo.


O circo leva essa entrega à arte até as últimas consequências. Circo é casa, trabalho, família, sonho, tudo junto, de cidade em cidade. Em Os pobres diabos, o circo surge como uma bela metáfora para falar do que é viver para a arte quando quase nada dá certo.


Os palhaços interpretados por Chico Diaz e Sâmia Bittencourt dividem um ovo cozido diariamente. Zeferino, interpretado por Gero Camilo, ensina a pequena Izaura a ser artista. Vemos a vida pulsar na desesperança, o sol nasce e dorme todos os dias. Mesmo com pouca gente na arquibancada quase improvisada, eles estão lá fazendo o melhor, o que conseguem, realizando a sina de viver a arte. A personagem de Silvia Buarque canta e dança aos modos de uma diva. Encenam um teatro-cordel, falam do cangaço e do inferno, alfinetam os politicos e sua mania de corrupção - esse tema que não sai das nossas cabeças nem por um minuto.


Nesses tempos de desmonte da cultura no Brasil, nessa vida sob um golpe, os artistas brasileiros têm vivido dias de pobres diabos. As coisas estão difíceis, e o temeroso teima em não sair de cena. É o jeito aguardar, continuar ensaiando, criar um tempo novo. É o jeito fazer um caminho feliz, pouco a pouco. Ainda bem que tudo desmorona, mas a arte permanece no sangue dos Carirys, que fervilha e não desiste.


Adriano Nogueira

TAGS