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Oração para Cecília

2017-05-30 01:30:00

Santa Cecília é a padroeira dos músicos. Dizem que seu último gesto em vida foi cantar para Deus ao morrer. Maria Cecília Nachtergaele era uma linda e jovem poeta. Seu último gesto antes de morrer foi deixar um relicário em versos no berço do seu filho. Uma forma de canto.


Maria Cecilia também gostava de música. Era fã de jazz, bossa nova, samba canção e tocava violão. Apaixonou-se por um engenheiro e instrumentista da Traditional Jazz Band. Começaram um belo e breve amor com trilha sonora. Casaram e tiveram um filho. No dia do batismo do menino, então com três meses, ela pousou um vestido preto em uma cadeira de palhinha e decidiu encerrar sua vida.


Deixou uma pequena e madura obra poética, datilografada em uma Olivetti, em folhas soltas. Falava de flores e mariposas, como se cada folha de poema quisesse ser simples e bela como são as pétalas e as asas. São textos de formatos variados, centrados em verbos, em ações essenciais: amar, ir, voar, sair, ficar.

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O menino cresceu e fez-se ator. O imenso Matheus Nachtergaele, amado no Brasil inteiro. Matheus recebeu de herança a máquina Olivetti, os poemas e a dor da ausência da mulher que partiu antes que ele pudesse ao menos gravar seu rosto vivo na memória. Só aos dezesseis anos, ele soube a verdade sobre a breve vida e a trágica morte de sua mãe.


Trinta anos depois, Matheus juntou tudo: poesia, música, dúvida, dor, o vestido preto, o enigma, o violão, a mariposa, o berço, o desejo. E decidiu consertar tudo em um concerto.


No espetáculo Processo de Conscerto do Desejo ele recita e canta seus versos. Canta também Sergio Endrigo, Paulinho Nogueira, as músicas das quais Cecília gostava. Ele dança e convida a plateia a dançar uma valsa. O mais sublime desse espetáculo está na consciência de que estamos ali para viver uma dor coletiva. Porque não é só Matheus que sofre. E se choramos, na plateia, não é só por ele. É pela forma como sua tragédia está ligada às nossas. Os nossos mortos todos estão ali também. A tragédia é parte da vida de todos e precisa, sim, de luz.


Esse espetáculo não nos faz sentir pena do Matheus. É o contrário. Que homem forte! Disse essa frase várias vezes. Que homem forte! Ele está em cena sempre com postura de prontidão, cabeça erguida, peito aberto, ágil, firme. Os gestos são decididos. Ele quer estar ali, ele está pronto para iluminar a sua dor. A nossa dor.


O menino saiu do berço, rezou pela mãe todas as noites, abraçou a vida, descobriu a verdade, virou ator e criou um belíssimo ritual de renascimento. A peça tem uma qualidade de texto e atuação sublimes, além de um desenho de luz comovente. A luz é personagem anunciada.


Diante do enigma, ele recria um sentido muito maior do que sua própria dor. Chama sua mãe no corpo, na carne, usa um vestido preto, dando aos dois, mãe e filho, a chance de estarem juntos. Ela chega, sim. Na voz e no corpo do filho, ela retorna. É possível intuir que ela até sorri. As dores imensas podem parir belezas imensas. Existem muitas formas de rezar para sobreviver. O teatro pode ser uma forma de oração.


Adriano Nogueira

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