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Transforme isto em outra coisa

2017-04-25 01:30:00

Organizar um evento que celebra o livro, a leitura e as bibliotecas é uma atividade um bocado pragmática. Exige planejamento, logística, muito dinheiro, muitas pessoas, papéis, livros, planilhas, mensagens, contratos, mais dinheiro, estruturas, ferros, cadeiras, mesas, carpete, prateleiras, vidro, madeira, todas as coisas que os olhos conseguem enxergar. Para que a feira exista, centenas de trabalhadores organizam os espaços e corredores do Centro de Convenções - que sozinho é enorme, gelado, difícil de percorrer e não sabe abraçar ninguém.


Uma vez organizadas as concretudes, chegam as almas e as pessoas. Buscam sentidos, querem ver, ouvir e ler. Assim começam os encontros. Ainda sentindo ecoar em mim os dias vividos na Bienal Internacional do Livro do Ceará, penso que o verbo mais valioso da vida é encontrar. Nele, cabem as melhores coisas, as importantes, das que precisamos para viver com um mínimo de humanidade.


Nessa Bienal, leitores encontraram seus autores preferidos e caíram de amores por Valter Hugo Mãe. Ele é um dos escritores mais aclamados da língua portuguesa, premiado, traduzido, elogiado, mas que deu autógrafos, abraços e fotografias para todos que pediram. Sempre gentil, consciente do seu papel como escritor de sentimentos em uma sociedade tão necessitada. Que lição.


Antes do evento começar, os quinze integrantes do Clube de Leitores da Sublime fizeram campanha para que Valter Hugo Mãe tomasse um café com eles. Foram ridicularizados. Disseram que ele nunca iria, que era uma bobagem. Pois o mais bonito é que ele foi, sim. Levou presentes, ficou feliz e ainda escreveu depois que realizou um sonho estando com eles. Novamente: que lição.


Tivemos também o Frei Betto entre nós, para lembrar que Jesus Cristo não morreu de hepatite, mas foi preso político. E que precisamos reagir contra o Golpe Branco sem sofrer, sem adoecer, mas sem parar de lutar.


Ainda sobre os encontros, o livro mais bonito lançado nessa Bienal chama-se Transforme isto em outra coisa, escrito por Naiana Gomes sobre a vida e a arte da Fernanda Meireles. Estou radiante de orgulho por ter sido professora das duas e por ter aprendido tanto lendo essas páginas plenas de sentido.


Fernanda sabe muito sobre a beleza dos encontros. Ela anda de bicicleta, caminha, fala com estranhos, vive cercada de pessoas, ama a cidade, escreve, desenha, vende tudo em uma loja sem paredes, ama os fantasmas do navio Mara Hope, abraça, abraça e abraça. Fernanda é Fortaleza. Esse livro é infinito.


Sobre os abraços, a frase mais linda da Bienal foi proferida pelo poeta Marcelino Freire: “o coração que se ganha é o que se dá em troca”. Parece que é assim mesmo que as coisas funcionam. A gente sabe, mas é sempre bom lembrar.


Ao final de tudo, estou orgulhosa da equipe que fez essa festa existir. E muito grata. A Bienal do Livro foi uma pausa para conjugar o verbo encontrar, para aprender, receber Literatura nas veias. Foi tempo de ver pessoas e palavras, ganhar frases para sempre, abrir os olhos, aguçar os sentidos. Depois do fim, transformemos isto tudo em outras coisas. Por dentro, pelas ruas, para os outros.


Adriano Nogueira

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