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Belleville

2017-03-28 01:30:00

Quis o destino que minha porta de entrada na França fosse o bairro de Belleville, de onde escrevo essa crônica em um domingo ensolarado de primavera. Uma rápida pesquisa antes de chegar me informou que, na Rua de Belleville, número 72, nasceu Edith Piaf. Segundo a cantora, seu parto aconteceu nas escadas, na calçada. Dizem os biógrafos que a coisa não foi bem assim, pois, no seu registro de nascimento, consta o nome do Hospital Tenon. Se ela preferia contar que nasceu nos degraus, eu escolho acreditar em Piaf e irei até o local fazer uma homenagem ao dia em que sua voz chegou ao nosso mundo.


Quem me trouxe a Belleville foram minhas editoras, Marie e Dorothy. Depois de muitos anos trabalhando no mercado editorial da França, elas decidiram abrir seu próprio selo. As duas já moraram em vários lugares do mundo - Itália, Líbano, meses de mochila pela América Latina - e acreditam no quanto uma alma pode ganhar alegria quando tem o prazer de desbravar o mundo.


A ideia foi criar uma editora com o propósito de publicar livros sobre lugares diferentes do mundo, com temáticas e linguagem popular, acessível para todos os públicos, com qualidade literária e o forte propósito de contar uma estória.


O nome, Éditions Belleville, é uma homenagem a esse bairro de imigrantes. Os idiomas que flutuam nas vozes de Belleville são os mais diversos, bem como os rostos, as peles, os hábitos. Há uma infinidade de restaurantes de culinária vietnamita, chinesa, coreana, tailandesa, africana. Belleville é um pedaço do mundo inteiro que decidiu viver em Paris.


Estou aqui para promover o livro Sainte Caboche, versão francesa de A Cabeça do Santo. A turnê de lançamento inclui três livrarias, a Radio France Internacional, a Sorbonne, Nanterre, Poitiers, Mans, a Maison de lAmerique Latine e o Salão do Livro de Paris. Entre um compromisso e outro, vemos nos corredores do metrô a triste situação das famílias de refugiados sírios pedem ajuda, por todos os lados.


Nas entrevistas sobre a realidade nordestina retratada no Sainte Caboche, é recorrente a pergunta sobre a nossa situação de desigualdade social, as questões políticas e as injustiças que são retratadas no microcosmos do livro. São um reflexo do que vi e vejo, é minha resposta. Esse livro conta a vida de pessoas pobres e simples, absolutamente agarradas à fé para sobreviver às adversidades.


Aqui em Paris, sou uma voz brasileira, representando o que somos e temos de melhor. Sainte Caboche recebeu criticas absolutamente positivas na imprensa francesa, incluindo os jornais Le Fígaro e Liberatión. Isso abre as portas para outros autores, outros projetos e para compreender melhor o Brasil que somos, em sua totalidade.


Tenho orgulho de estar aqui por causa de um livro que fala dos romeiros de Juazeiro do Norte e Canindé, da fé do povo do Sertão, do olhar nordestino para o mundo. Mais ainda, estou feliz por ver os leitores franceses encantados com o interior do Ceará.


Ainda tenho muito trabalho a cumprir na França. Por alguns dias, eu, meu marido e nossas duas filhas somos felizes moradores do bairro de Edith Piaf, mais quatro estrangeiros em Belleville, onde cabe o mundo inteiro.

Adriano Nogueira

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