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VERSÃO IMPRESSA

Para beber da água escrita

2017-02-07 01:30:00

Um leitor imaginário, ao fim de uma semana exaustiva, senta-se da forma mais confortável possível. Pode ser uma leitora, a escolha é sua. Ele tem tempo, silêncio e desejo de ler. Busca algo que possa trazer uma paz despretensiosa, que abra janelas e o retire do vendaval da rotina.


Ele segura um exemplar. Observa a capa demoradamente, uma foto em preto e branco com um retângulo verde água, informado do que se trata. Quando um livro é preparado com cuidado, cada detalhe faz absoluto sentido. Capa, papel, projeto gráfico formam o corpo. O texto é a alma.


Nosso leitor imaginário observa a foto que exibe o rosto, parte do colo e a mão direita de uma mulher, a autora. Ela usa uma blusa de lã, colar de pedras grandes e levemente quadradas. Na mão, um anel único, com uma pedra que ocupa toda a falange inferior do seu indicador. As unhas são bem feitas. A concavidade bem marcada e maciez da pele ao redor, indicam que a dona dessas mãos dedica algum tempo a cuidar delas. Isso é bom sinal, visto que é da ponta dos seus dedos que nascem as palavras, matéria prima da sua profissão.


A mulher da capa tem cabelos penteados com escova, talvez algum laquê. Segura um óculos por sua perna única, à moda antiga, provavelmente para ler de perto. Talvez esteja perto dos 50 anos. Esse dado, a idade presumida, só conta a seu favor. Se vamos ler um livro escrito por ela, quanto mais tenha vivido, melhor.


Voltemos ao seu rosto: há um sorriso, felizmente. Ela não deu ouvidos a essa conversa de que antipatia confere seriedade e competência ao rosto de uma mulher. Ela sorri com os olhos, inclusive. Seu nome é quase impronunciável: Wislava Szymborska. O título do livro é Um amor feliz. São 85 poemas selecionados pela tradutora Regina Przybycien, publicados em polonês na página esquerda e português do lado direito.


Nosso leitor imaginário lê os poemas sem ordem e vive a experiência de uma outra poesia. Não mais as rimas fáceis, não mais os versos limitados a definir, afirmar e louvar. E rimar, obviamente, essa obsessão antiga. O espírito desse texto é outro. Ela vira o bordado pelo avesso.


Nosso leitor imaginário lê todos os poemas com demora, parando nas frases que o impactam. Isso sim. No final do livro há o discurso de Wislawa ao receber o Prêmio Nobel de Literatura: “…na língua da poesia, em que se pesam todas as palavras, nada é usual ou normal. Nem uma única pedra e nem uma única nuvem acima dela. Nem um único dia e nem uma única noite depois dele. E sobretudo nem uma única existência, a existência de nenhuma pessoa neste mundo. Tudo indica que os poetas terão sempre uma tarefa muito árdua à espera”.


Depois de concluir a leitura da poeta polonesa - essa aula breve e contundente sobre a poesia; de brincar de adivinhar o significado de ryba, rybe, nigdy, sobota, normalne, balonik, de viver a vida em polonês por uma hora e pouco, ele volta à sua rotina.


Dali em diante, quando for surpreendido por algum fato inusitado que a vida apresente, vai parar para pensar: o que a Sra. Szymborska escreveria de belo sobre isso? Da capa do livro, ela vai sorrir com os olhos, talvez diga algo impronunciável: Niewiele brakowato. Ale zadna z nich para. E nosso leitor seguirá vivendo, um pouco melhor, graças a ela.


Adriano Nogueira

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