Tipos de comentaristas II 

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Tipos de comentaristas II

2018-09-06 01:30:00
Durante um tempo o comentarista de resultados foi um dos meus personagens prediletos. Ele não precisava ver os jogos, lhe bastava saber os resultados. De posse dessa informação ele incendiava os torcedores explorando o efeito catalisador da vitória ou da derrota.

Meus olhos agora se voltam para o comentarista moderno. Ele é exclusivo das redes de televisão e junto com o técnico moderno vão introduzindo e adequando palavras antigas para um futebol que no decorrer do tempo não se sabe se está evoluindo.

 

Que está mudando eu sei. A melhoria das condições de saúde, a evolução dos métodos de treinamentos físico, técnico e tático, as condições de espaço para as práticas e o desenvolvimento das qualidades mentais nos jogadores sistematizam o jogo e criam dados que permitem avaliar os resultados.

 

Aí o comentarista moderno se identifica com o comentarista de resultados. E, baseados em alguns indicativos, tome avaliação: tempo de posse de bola, chutes à meta, número de faltas, cartões, passes certos e errados, por aí vai.

 

Um dos quesitos que mais excitam o comentarista moderno é a entrega. O jogo acaba e alguns jogadores, no limite do seu esforço, cansados do excesso de jogos e viagens, desabam no campo. Aí é a sua hora! Elogia o espírito de luta e diz que amanhã tem mais.

 

Gosto dos comentaristas das antigas. Além de me identificar com eles pela idade, me encanto com seu olhar para a estética do jogo. Não basta vencer a partida, é preciso jogar bem, até porque a vitória é um mero dado estatístico, enquanto a bela jogada fica guardada na mente do torcedor.

 

Surgiram e cresceram num tempo em que éramos os reis do futebol e os grandes narradores e comentaristas do rádio encantavam ouvintes com uma linguagem simples e comovente. Entrega naquele tempo era um jogador disposto que ia à bola como a um prato de comida.

 

O poeta Carlos Drumond de Andrade escreveu sobre esse encantamento no seu livro Hoje é Dia de Futebol, publicado em 2002 pela Record e republicado em 2014 pela Cia das Letras: "O difícil, o extraordinário não é fazer mil gols como Pelé. É fazer um gol como Pelé.

Sérgio Redes

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