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O talento nacional

2018-07-19 01:30:00

Chego à casa segunda à noite depois do Com A Bola Toda, da TVC, e o telefone toca. Do outro lado da linha meu médico Antonio José, atordoado com o número de faltas e o péssimo futebol posto em prática pelas equipes de Vasco e Bahia, reclama furioso do momento do futebol.


Escuto com atenção e discordo dele com relação à qualidade dos jogadores, mas concordo que quem acaba de ver uma Copa do Mundo que prima pela qualidade dos campos, dos estádios e pela organização, fica horrorizado quando se depara com a nossa realidade.


Às vezes também me decepciono, mas procuro sempre lembrar o olhar singular do inesquecível Augusto Pontes sobre a supremacia do futebol brasileiro. Deixava de lado os maiores craques e conquistas e recorria a um argumento que deixava muita gente perplexa.


Segundo ele dois aviões lotados estão voando e vão pousar no mesmo lugar. Um com brasileiros e outro com estrangeiros.

No desembarque a exigência. Os passageiros teriam que se enfrentar em partidas de futebol. Aleatoriamente são feitos times de estrangeiros e brasileiros.


A bola cristal do Augusto previa vitória dos brasileiros na maioria dos jogos. Faz sentido. Não é por acaso que contratam o jogador brasileiro. A CBF divulgou que na primeira janela aberta entre janeiro e abril do ano passado 760 jogadores foram para o Exterior, sendo que 146 deles não tinham registro no País.


A matéria prima é qualificada. Encontra-se com facilidade em qualquer canto, encantando milhares de torcedores com seus dribles, controle de bola, passes e chutes nos campos de várzeas, nas ruas, nas praias, enfim, em cada metro desses 8 milhões de km².


Não interessa refinar essa matéria. Controle emocional, compreensão, confiança e ética não é tarefa de clube brasileiro. O negócio é vender o jogador. Para isso tem sempre um dirigente e um empresário de plantão fazendo do mercado a sua bússola e cumprindo o triste ditado: farinha pouca meu pirão primeiro.


Despedi-me do Antonio José repetindo a história caricata que me contaram um dia: distribuindo pessoas pelo universo Deus olhou para o Brasil e disse: “Aqui vou colocar os melhores jogadores de futebol”. Depois, pensou, pensou, e, com seu bom senso resolveu equilibrar. E surgiram os dirigentes de futebol.

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