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Matadores de mulheres

01:30 | 05/02/2018

Historicamente, os homicídios sempre tiveram como vítimas preferenciais jovens do sexo masculino, negros e moradores de periferia. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2017, 95,4% das pessoas assassinadas no Ceará eram homens. A nova dinâmica da violência no Estado, contudo, está fazendo com que esse perfil seja alterado. O número de mulheres assassinadas disparou em janeiro deste ano, seguindo uma tendência de crescimento cuja origem remonta a abril do ano passado. 

 

Embora os números oficiais ainda não tenham sido divulgados, o percentual de mulheres assassinadas saltou de 2,7% para cerca de 9% no período. 

No que se refere aos homicídios de mulheres, não raro os próprios companheiros são seus assassinos, como no caso de Sthefani Brito, que, após ser morta, ainda teve o corpo carregado na garupa de uma moto, no bairro do Mondubim. Vale ressaltar que o autor do crime, que já completou mais de um mês, permanece foragido. O crescimento na taxa de mortalidade feminina, contudo, não está relacionado somente à dimensão do relacionamento amoroso, mas possui ligação estreita como conflito aberto entre facções rivais.  

Não é de hoje que as mulheres assumiram um papel mais ativo no mundo do crime. Basta ver a expansão do número de presas no sistema prisional cearense, que aumentou 56,8% entre 2013 e 2017. Segundo a Secretaria da Justiça (Sejus), a maioria das detentas cumpre pena por tráfico de drogas ou associação para o tráfico. Além disso, ainda que não estejam envolvidas diretamente com práticas criminosas, ocupam papéis sociais diversos (por exemplo: mães, esposas, namoradas) na intrincada trama dos circuitos criminais, tornando-se alvos de retaliações ou ataques. 

Se antes havia uma restrição ao emprego da violência letal contra mulheres, o cenário atual é de barbárie sem limites. Mobilizados por um imaginário hipermasculinizado de guerra, jovens e adolescentes armados saem às ruas para caçar inimigos. Pelas redes sociais, é possível acompanhar parte dessa movimentação. Seguindo a lógica dos confrontos armados, em que estupros e violações são comuns, as mulheres representam ora troféus ora alvos a serem eliminados. Os “guerreiros” do tráfico costumam postar fotos de armas ou frases de efeito que ressaltam valores caros às organizações criminosas como companheirismo, lealdade e coragem. Ameaças à facção rival também são constantes, bem como a publicação de fotos dos desafetos em uma espécie de lista macabra de procurados. As trocas de ofensas e provocações ocorrem muitas vezes nos espaços dedicados aos comentários, como se a “invasão” ao perfil do adversário fosse uma mostra de bravura e destemor. 

É preocupante perceber a constituição de uma sociabilidade juvenil tão marcada pela violência e pelo ódio. Isso também se reflete no modo como as jovens são tratadas no cotidiano das facções. As adolescentes que mantêm ligações com integrantes de grupos adversários são chamadas pejorativamente de “marmitas”. Suas imagens são expostas em tais redes quase sempre com ameaças. Há relatos ainda de que até mesmo o simples gestual com as mãos em uma foto pode vir a representar sentença de morte.  Conforme matéria publicada no O POVO, 60 meninas foram assassinadas no ano passado. Os crimes quase sempre possuem requintes de crueldade, com o emprego de tortura e mutilações. 

É preciso um olhar mais atento da sociedade ao que vem acontecendo com as jovens e adolescentes das periferias. Não se trata apenas de um caso de polícia, mas de uma cultura que vem se disseminando de forma assustadora. 

 

É preciso ainda criar mecanismos de proteção e atendimento às vítimas e às famílias, que se veem subjugadas pelo desamparo e pelo completo desrespeito à dignidade humana. Não se trata apenas de uma questão de Segurança Pública, mas de como lidamos com nossa própria humanidade. 

 

RICARDO MOURA

RICARDOMBC@GMAIL.COM