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Gangues, pandillas e facções

01:30 | 04/12/2017

Para compreender a brutalidade com que as facções atuam em Fortaleza, é preciso que voltemos nosso olhar para a realidade das gangues juvenis na América Latina (conhecidas como maras e pandillas), que atemorizam países como Honduras, El Salvador e Colômbia. As pandillas têm origem nos Estados Unidos, mas logo se espalharam por diversos países americanos, modificando sua forma de atuação conforme a região em que estão inseridas. As duas gangues mais conhecidas e perigosas são a Mara Salvatrucha (M13) e o Barrio 18, grupos rivais que disputam o poder valendo-se de formas extremas de violência letal.

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Pedro Gallego Martínez, autor de um livro sobre o tema, define a pandilla como “agrupamentos de jovens de ambos os sexos, que se unem com a finalidade de controlar um bairro ou um território e fazem do pertencimento ao grupo uma forma de vida que lhes leva a cometer qualquer tipo de delito e inclusive perder a vida”. Martínez afirma ainda que três são as saídas para o que os jovens pandilleiros chamam de “la vida loca”: a prisão, o hospital e o cemitério.

O domínio sobre o território é o fundamento de todas as ações. O uso de uma linguagem própria, pichações e tatuagens são meios de identificação não só de seus membros, mas das áreas pertencentes a cada uma das gangues. Na Mara Salvatrucha, por exemplo, não é permitido usar roupas vermelhas por remeter à gangue rival. As tatuagens mais habituais são as do número 13, das letras “M” e “S” ou da imagem do Coração de Jesus. Os dias 13 de cada mês são festejados com a prática de assassinatos, em que as vítimas são esquartejadas e pedaços dos corpos são espalhados por locais diversos. O roubo e o consumo de heroína no território da mara são proibidos. Traições e deserções são punidas com a morte ou com a expulsão de famílias inteiras de seus locais de moradia.

Dentre os fatores de surgimento ou expansão das pandillas estão: processos de exclusão social, cultura da violência, crescimento urbano rápido e desordenado, desorganização comunitária, dinâmicas violentas e dificuldades de construção da identidade pessoal. O financiamento de tais grupos vem de fontes diversas, como a extorsão, o tráfico de drogas e o sequestro.

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Um estudo da Comissão Espanhola de Ajuda ao Refugiado (Cear) sobre o tema afirma que “a força com que tais grupos se implantam e crescem pegou as autoridades centro-americanas desprevenidas. Os governos só se conscientizaram da dimensão do problema quando a criminalidade aumentou drasticamente e o controle das maras sobre os bairros já era um fato consolidado.”

A resposta estatal às pandillas tem sido sempre reativa e repressiva. Em El Salvador, a política de repressão às gangues conhecida como “mano dura” fez com que a população carcerária dobrasse em quatro anos. O encarceramento em massa contribuiu para que as maras se fortalecessem ao arregimentar novos membros. A divisão das prisões por gangues fez com que os grupos pudessem se organizar ainda mais, passando a comandar suas ações mesmo detrás das grades. Um acordo de paz entre a Mara Salvatrucha e o Barrio 18, mediado pela Igreja Católica, Organização dos Estados Americanos (OEA) e sociedade civil, fez com que a taxa de homicídios despencasse. A “paz” durou pouco. Com a mudança de governo e a volta de uma política de segurança voltada para o confronto direto, os índices dobraram, tornando El Salvador o país mais violento da América Central.

Como se vê, a forma de atuação e o desenvolvimento das pandillas são por demais parecidas com a realidade das facções que operam no Ceará. As nossas dinâmicas criminais remontam, contudo, ao processo de disputa de territórios pelas gangues juvenis nos anos 1990, como bem salienta o pesquisador Luiz Fábio Paiva, do Laboratório de Estudos da Violência (LEV/UFC), em suas intervenções públicas. Se as facções são um problema recente, suas sementes sempre estiveram presentes entre nós. Se elas criaram raízes tão profundas e frutificaram tão rapidamente, isso se deve principalmente ao descaso com que lidamos com os jovens das periferias. A trilha de sangue, horror e medo que se estende pelas ruas da Cidade é resultado direto dessa omissão.

RICARDO MOURA