Tempos de murici
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Tempos de murici

2018-11-26 01:30:00

Sim, a praça estava linda de se ver naquela sexta-feira, toda arrumada para o início das festividades natalinas. "Somos luz, somos da paz", diziam todas aquelas mais de 60 mil pessoas, embasbacadas com a árvore de Natal cubista, construída em panos e cabos, e o velho hotel, com sua decoração valorizada em neon. Claro, as crianças vestidas de Papai Noel, assim como o Bom Velhinho, estavam lá nas sacadas do Excelsior, além do cantor famoso, soltando seu vozeirão entre canteiros e revelações. O calçadão da Guilherme Rocha luzia, novo de novo. Tudo parecia sorrir sob uma chuva de pétalas. Mas, para aquele homem no meio do povo, a coisa toda cheirava a hipocrisia. "Onde estão os moradores de rua?", perguntava-se, "Ei, cadê a tal da solidariedade?".

 

Sentado no banco em meio ao burburinho, ouvia calado aquelas canções que tão bem conhecia. Não queria ser do contra, mas o que ali lhe captavam os sentidos não batia com o que sentia e passava no cotidiano. "Vivemos tempos difíceis", ruminava, "caminhamos tanto, superamos tantas dificuldades, para chegar a este ponto?". O que para muitos poderia parecer apenas mimimi, para ele era um lamento sincero. "Enquanto se dá essa perigosa mistura de religião fundamentalista com política de baixíssimo nível, assistimos à transformação do Cristo que pregava o amor e a tolerância num Cristo pantocrator, de feição séria e irritada, onipotente e impiedoso, com sua mão direita numa posição que tanto pode significar uma benção quanto uma arma de fogo", refletia, crispado.

 

"Tempos de uma meritocracia sem a base de condições de partida iguais para todos. Tempos em que ser solidário é ser babaca. Tempos de uma educação feita não para educar, mas para adestrar, para refinar a máxima hobbesiana do homem como o lobo do homem, conceito fundamental para sobreviver na selva do mercado de trabalho. Tempos em que o ícone é o self made man/woman, cada vez mais solitários, tristes e vazios. Tempos de negação da História e da verdade. Tempos de valorização da violência como norma de conduta e da cruel imposição do silêncio a quem ousar pensar diferente. Tempos em que ideologia é confundida com corrupção, menos aquela, aquela não". Sua cabeça era um carrossel de pensamentos. Talvez teria sido melhor ter ficado em casa.

 

Lembrou-se dos refugiados hondurenhos e dos médicos cubanos: "Que belo Natal vão ter, não?". Os primeiros, tangidos do seu torrão pelas gangues maras, tentam cruzar o México para chegar à terra do Tio Sam, onde imaginam conseguir emprego e segurança. "O sonho é doce magia da varinha de condão", riu-se, restando-lhe o gracejo como consolo. Os segundos, tratados como lixo em Pindorama, serão substituídos por colegas brasileiros, que já avisaram o Ministério da Saúde sobre o seu desejo de atuar nas capitais. "Sem shoppings, sem médicos", curtiu mais uma vez. "Papai Noel, vê se você tem a felicidade pra você me dar", cantou a meninada nas varandas iluminadas. "Com certeza já morreu ou então felicidade é brinquedo que não tem", soluçou.

Romeu Duarte

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