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A caverna

2018-07-09 01:30:00

 

A Arnaud e Margarida Romero

Há algumas semanas, neste agora quinzenal espaço, resolvi dar meu pitaco na seleção brasileira, que então se preparava para disputar sua 21ª Copa do Mundo na Rússia. Como um dos mais de duzentos mil técnicos de futebol existentes em Pindorama, achei-me no direito de expressar minha posição em relação à Canarinho. Qual o quê, meus camaradas... Choveram críticas de todos os lados, até pragas me rogaram. Na visão dos meus detratores, eu seria apenas um sujeito de mal com a vida, que adora misturar futebol com política, que não entende lhufas do esporte bretão, um arquiteto praticando aquilo que mais lhe apetece, que é ter aquela velha opinião formada sobre tudo. Contudo, nada como o tempo para revelar a genuína essência das coisas e das pessoas.

Esses e outros pensamentos me ocorriam na última sexta-feira à noite, no táxi que levava a mim e a Solange para casa sob forte chuva, após o jogo do nosso time contra o da Bélgica, assistido na Arena Vila Romero entre muitos goles e garfadas.

"Quando é que você vai amadurecer e parar de se preocupar com coisas insignificantes tais como o futebol?", ralhou a minha mulher, disfarçando a sua decepção com a derrota. O motorista, meu colega de ofício e ex-jogador, desfiou um rosário de razões que levaram a verde-e-amarelo à lona, desde a escalação errada de jogadores até a presença perniciosa de outros. "Doutor, só não vê quem não quer. Agora é esquecer e dar a volta por cima". Com certeza, esta original frase foi dita por ele ao final das muitas partidas que perdeu, pois.

Sob a chuva, à feição de ectoplasmas, via no para-brisa molhado do carro de aluguel os rostos dos nossos jogadores.

Nosso lindo goleiro é um modelo, um modelo de falta de reflexo. O Gomez da Família Adams que dá uma de lateral direito é limitadíssimo. A dupla de zaga até que se deu bem com as babas que pegamos; quando foi para valer, borrou-se toda. Nosso lateral esquerdo é uma avenida iluminada. O meio-de-campo não tem recursos, cansa rápido demais, não é criativo. O Fernandinho não joga nem no Terra e Mar. O Afroguetinho e o Gabriel (Ai, Jesus!), com suas sobrancelhas em triste circunflexo, formaram um ataque cardíaco. Falta falar do tal cai-cai peladeiro, mau caráter, sonegador de impostos e metedor de atestado. Pronto, falei. Quanto ao Tite, é pegar o beco...

"Agora é 'coxinhas, go home!'", disse a minha mulher, no seu afã de trazer-me à realidade. Súbito, veio-me à mente a terrível situação dos meninos isolados em uma caverna na Tailândia. Frente a este drama, meus pobres perrengues, de pequenos, passaram a liliputianos. Um time de futebol infantil liderado por um técnico amalucado meteu-se num buraco adentro e hoje preocupa o mundo inteiro. Qualquer coincidência com a nossa seleção não é mera semelhança, é só igual. Foi a minha 13ª Copa. Uma Copa sem talento, sem estratégia e sem tesão. Aliás, eu já devia ter me acostumado a ver gente de camisa da CBF dando vexame, agindo como palhaço e fazendo merda. Só me resta agora o Vovô e o seu calvário. Pelo menos, estamos há um mês sem perder. Ô vanta...

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