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Coisa de Preto

2017-11-20 01:30:00
Nesta sôfrega descida ao abismo sem fundo em que se transformou a vida brasileira, na qual as más notícias se avolumam na fossa nossa de cada dia, vale destacar a pérola dita nos EUA por um rabugento comentarista político, agora talvez ex-global, sobre a qualidade dos procedimentos tradicionalmente atribuídos aos afro-descendentes. E imaginar que os antepassados de tal figura, fiéis à mesma Torá, foram cruelmente imolados em holocausto pelos nazistas pela mesma torpe visão de mundo: o preconceito. Nervosinhos, os que pensam parecido já saem com suas gracinhas contra o politicamente correto. Não é isso e eles bem sabem disso. A questão é que quando é no dos outros não tem problema, não é? E assim, de ódio em ódio, segue o cotidiano.

Como as cartas, os números não mentem jamais: segundo o IBGE, no terceiro semestre deste ano, 13 milhões de pessoas não tinham qualquer ocupação. Destas, 8,3 milhões ou 63,7% se declaram pretos ou pardos. E não é só essa mazela socioeconômica que acomete esse segmento da nossa população: a informalidade, os empregos mais aviltantes, a falta de carteira assinada, os salários mais baixos e o recebimento de pouco mais da metade da renda média dos cidadãos que se consideram brancos são outros elementos que compõem um revoltante cenário, mesmo sendo a população de negros e pardos 54,9% da nacional acima dos 14 anos. Há ainda Polianas que veem o Bananão como uma grande democracia racial. Bem, tem gente para tudo, não?

 

Ostentando uma morenice brejeira (um tanto sambada, mas ainda atraente, como dizem por aí), ninguém acredita que nasci louro e de olhos azuis, ganhando na infância o apelido de Ted Boy Marino, um fulvo lutador de tele-catch. A vida me sorria enquanto a brisa soprava meus claros cabelos cacheados. Súbito, uma febre maldita prostrou-me na Assistência Municipal (é o novo...). Ardi por três dias e três noites, para desespero de papai e mamãe. O que sobrou é o que se vê encimando esta coluna. Contei essa mirabolante história para um colega da academia que havia me convidado para fazer parte de um coletivo negro. Ele me perguntou se eu era doido, mentiroso ou os dois. Rindo, disse-lhe que democracia social vem antes da raça. O cara não gostou.

 

Aliás, esse conceito é o eixo central do livro O povo brasileiro – formação e sentido do Brasil, obra monumental do grande antropólogo Darcy Ribeiro, que completou 20 anos de edição em 2015, infelizmente muito pouco lida. No afã de compreender por que nosso País não dera certo, Darcy defendeu a miscigenação dos povos europeus, ameríndios e africanos como a principal característica do Brasil, a “Nova Roma”, levantada a partir da desconstrução dessas três matrizes. Contrário ao viés romântico de Gilberto Freyre quanto ao tema, denunciou a desigualdade, a concentração de riqueza e a desumanidade nas relações de trabalho. Que país criamos e aonde essa ira toda nos levará? Nisso de preto e branco, meus amigos, sou mais o Alvinegro de Porangabuçu...


Adriano Nogueira

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