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Na parede da memória

2017-10-30 01:30:00

Não sei por qual razão, talvez pelo fato de sempre me associarem às coisas do patrimônio (“se é velharia, deixa com ele”, devem pensar), acabei como fiel depositário de um grande número de fotografias do Bar do Aírton, confraria inexistente do ponto de vista material, porém ativíssima no âmbito intangível. A tal ponto isto é verdade que basta o velho dono do estabelecimento se reunir com alguns antigos fregueses, como por artes divinas (ou do Demo), para que o famoso boteco volte novamente à ativa. Altino e Gorete, patrões da agradável Embaixada da Cachaça, já sacaram essa singularidade mágica do nosso grupo e passaram a colocar aos sábados uma placa com o nome do gostoso pé-sujo à frente do seu empório. Sensibilidade não é para todo mundo, não é mesmo?


Para os desavisados e diletantes da boemia (e como os há, caro(a) leitor(a)...), o Bar do Aírton foi apenas um botequim zoadento com uma clientela idem. Deu seus primeiros passos no alvorecer da década de 1980, num pequeno espaço na Rua Visconde Mauá, no Dionísio Torres. O ponto era tão bagunçado e imundo que ganhou dos frequentadores o carinhoso apelido de Chernobyl. Foi lá, entre copos borrados e inúmeros brindes, que muitos de nós tornamo-nos diaristas e onde realizamos festas memoráveis. Mal visto pela vizinhança, mudou-se de armas e bagagens para uma casa na fronteira do bairro com o São João do Tauape, quando quase se tornou um clube. Por fim, estabeleceu-se durante muitos anos no Joaquim Távora, numa tapera em ruínas e sem teto.


Às fotos, pois. Numa linha cronológica, são imagens que já somam mais de trinta anos. Dão conta de uma época em que talvez fôssemos mais alegres e jovens, com menos barriga e mais cabelo, menos rugas e mais sorrisos. Gente esbanjando disposição e destruindo juventude, como se não houvesse amanhã. São retratos de grandes libações, nas quais comemorávamos nossos aniversários e cerimônias natalinas. As camisas que desenhávamos ano a ano, a maior parte delas repousando nas minhas gavetas como vivos testemunhos de prazer e camaradagem. Se há uniões hoje desfeitas e uma turma que já passou desta para melhor, há também amores perenes e um povinho que continua celebrando amiúde no altar do deus Baco. Ah, bons tempos aqueles...


E as mil histórias? A do homem ligando para a mulher do orelhão e pedindo um impossível perdão. A do alvará inexistente. A da banana (“taí uma frutinha que eu não gosto...”). A do sujeito que entrou no armário na hora da mudança. A da coroa de flores surrupiada do caixão funerário. Tantas marmotas, tantas doidices, tantas gaiatices que nenhum livro, peça ou filme seriam suficientes para dar uma ideia do que por lá aprontamos. Pudera, um bar cujo proprietário não raro se enchia dos clientes e ia para casa, não sem antes pedir a estes que anotassem suas despesas no implacável caderninho. O que fazer com essas fotografias? Colocar tudo dentro de uma caixa e dar adeus ao passado? Ou pô-las com carinho na parede da memória, como bem nos cantou Belchior?

Adriano Nogueira

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