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Trairagem no ar

2017-09-18 01:30:00
Você conhece alguém, estabelece aos poucos uma relação com a pessoa, cria laços de amizade e confiança, quando não de interesse mútuo ou de amor mesmo, o vínculo é posto uma vez à prova e reage bem, mais uma vez é testado e o resultado é semelhante, você acha que encontrou a sua cara-metade e aí vem um Irma desses e põe tudo abaixo num segundo. Zona de conforto abalada, o crime descoberto, as sôfregas tentativas de salvar a pele, os solitários domingos à tarde na solitária da fria prisão curitibana, o medo e a angústia de mofar na cadeia, tudo é motivo para ver de novo a luz do sol sem o incômodo enquadramento, tomar um sorvete de coco olhando o povo na cara. “Não tenho paciência de ser preso!”, gemia o aflito Caroço de Moreira Campos.

 

Anos e anos na agremiação partidária, comendo o pão que Asmodeu amassou. Dificuldade de interlocução com a sociedade, rachas internos, disputa sobre quem é mais de esquerda do que eu, eleições perdidas. Cria-se a imagem do imbatível líder popular, com seu séquito de colaboradores e puxa-sacos. Ganha a árdua campanha, candidato eleito e reeleito, sucessora idem, no vácuo. As forças do atraso mais uma vez pondo o dedo no suspiro, muita ingenuidade, conspirações, puxadas de tapete, plenários comprados, baixarias parlamentares, queda da governante. E tome denúncias, processos, prisões e delações a granel. Agora em lados opostos, o dedo de um apontando para o outro, os ex-companheiros esmeram-se em esmerilhar suas línguas. Lúgubre...

 

Seria uma visita rápida, fora da agenda, nas horas mortas de um dia de fim de semana. O assessor, doido por malas de dinheiro, já tinha acertado tudo com a vigilância do palácio. O magnata gravou sua conversa com o mandatário, na qual este recomendava ao primeiro que não falta$$e alpi$te ao$ $eu$ pa$$arinho$ engaiolado$. Vazada a tramoia, muitos jogos de cena e de mãos, disse-não-disse, plenários comprados de novo, doleiros medrosos e loquazes, juristas boquirrotos, arrogantes e midiáticos. Repeteco: denúncias, processos, prisões e delações a granel. O interino, com a quase unânime rejeição do país ao seu governo, é o chefe do quadrilhão. Mesmo assim, sujo, quer erigir a sua ponte para o futuro. Ah, Surubão, com teus políticos, não precisas de furacões.

 

Isso talvez explique ou justifique, caro(a) leitor(a), a sua cômoda posição neste momento. O mundo se acabando lá fora, seu emprego e sua aposentadoria se desmilinguindo, seus direitos sendo jogados na lata do lixo e você aí, de laptop no colo, destilando sua ira no Facebook. Um(a) legítimo(a) e indignado(a) militante de sofá. Sei, claro que a decepção é grande, o que serve como desculpa para a apatia, a rua vazia, o nojo da política e outros pesares. Mas, é exatamente esse comportamento indiferente do público o que pretende quem quer lhe passar solenemente o rodo. Como dizia Lênin, no marco dos cem anos do fuá que aprontou em Moscou, “sonhos, acredite neles”. Senão, baby, nessa batida, só restará lamentar o bolo que a Lady Gaga deu no Rock’n’Rio...

Adriano Nogueira

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