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Abemolando o caos

2017-04-10 01:30:00

Não sei se vocês se lembram do Sílvio Brito, um artista que fez muito sucesso nos anos de 1970. Pois bem: nesta última semana, me lembrei muito de uma canção que ele cantava: “Pare o mundo que eu quero descer”. Meio caricato, assíduo no Programa Sílvio Santos, o cara era uma espécie de Raul Seixas cafona, se é que isso é (era) possível. Uma variedade de cantor de protesto adorado pelas mamães e vovós da época, sempre com uma piada marota por atrás dos óculos de aro redondo à John Lennon. “Qual a razão da recordação, doçura?”, deverão estar perguntando os mais impacientes. Respondo na bucha: E precisa? Nos sete dias passados, Trump, Putin, Bashar-El-Assad, Kim Jong-un, Bolsonaro (argh!), além dos problemas locais, puseram nossos cabelos em pé sem qualquer necessidade de gel ou laquê. Quanto aperreio, quanta doidice, meu povo! “Pare o mundo que eu quero descer, que eu não aguento mais escovar os dentes com a boca cheia de fumaça”.


Nas últimas manhãs, acordamos e tomamos café molhando as mãos no sangue que escorreu farto dos jornais. Civis, homens, mulheres e crianças morrendo feito moscas na Síria, a antiga e bela província romana dos anos recentes antes de Cristo, hoje um verdadeiro açougue humano, território devastado à mercê dos sacanas interesses das potências mundiais. Num dia, o mortífero perfume do gás sarin nas narinas. No outro, mísseis detonados de navios fundeados no Mediterrâneo caindo nas cabeças da população. A estreiteza mental do ditador sírio, do boss norte-americano e do novo czar russo é de amargar. Como se fora pouco, o neto de Kim Il-sung, dirigente do PT norte-coreano e fã da Disneylândia e de artefatos bélicos, explodiu umas bombinhas de hidrogênio cerca de 50 vezes mais potentes que a que devastou Hiroshima. “Pare o mundo que eu quero descer, no rosto das pessoas a mesma expressão de ascensorista de elevador contrariado”.


Mas o Brasil não poderia ficar atrás quando o assunto é barbárie. O misógino e homofóbico deputado federal carioca, numa mais que aplaudida palestra-show na Hebraica/RJ (judeus nazistas?!), desancou índios, quilombolas, homossexuais e mulheres, prometendo, caso eleito em 2018, que todo mundo terá um pau de fogo em casa. Simples, assim. Será que ele interpretou mal o verso beatle do Belchior, aquele lá, “a felicidade é uma arma quente”? Sobrou até para a filha dele, Laura, concebida, segundo o biltre, por uma fraquejada sua. O Facebook espicaça: “Deus tem bilhões de filhos, mas deu uma fraquejada e nasceu o Bolsonaro”. A comunidade judaica de esquerda estrilou, dizendo que o sionismo e o pensamento social inclusivo são incompatíveis. Estaria a judeuzada reaça propondo um pogrom ao contrário? Triste foi ver tudo isso com a bandeira de Israel por trás. “Pare o mundo que eu quero descer, você nasceu numa época cheia de conflitos entre raças”.


A Loura, enciumada e invejosa, pediu para também entrar na crônica, dizendo que “loucura por loucura, era muito mais ela”. E foi logo despejando suas muitas mazelas, cevadas na desurbanização: o aeroporto sebastianista, que vai inchar e salvar o Ceará, complicando espacialmente a capital deste (“se houver algum problema, os semideuses urbanistas vão lá e resolvem”); a praia de futuro incerto, de passado esquecido e presente invadido; condomínios, hotéis e beach-parks construídos em áreas praianas de uso comum das pessoas, entre outras coisas do arco da velha. “Tá tudo errado, tá tudo errado, desorientado segue o mundo enquanto eu vou ficando aqui parado”. Vou riscando estas mal-traçadas na cachola enquanto, no Serpentina, Ribamar Sete Cordas e Marinaldo do Bandolim fazem chorar com o seu divino choro. Qualquer coincidência com a orquestra do Titanic é mera semelhança. Queima, Sílvio: “Só quero ter você comigo pra mandar o resto pro diabo”...


Adriano Nogueira

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