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De lutas e do direito à cidade

2017-01-23 01:30:00
Maior invenção humana, a cidade é um artefato construído por muitas mãos no cotidiano. Por esta razão, não é um objeto homogêneo; seus muitos lugares exibem a fatura social e ideológica de quem os produziu, dizendo também da maneira como foram apropriados. Claro está: a forma dos territórios urbanos, seu aspecto, deixa evidente quem neles manda, quem neles exerce o poder. A eclusa (para mim, chiqueirinho) na entrada do condomínio de luxo é a tradução chique do cartaz torto com letras garrafais posto no acesso à favela, impondo luz baixa, vidro abaixado e a identificação de quem está na viatura. Os espaços citadinos são também mutantes: a calçada que acolhe os passos dos clientes das lojas no Centro é o leito noturno da multidão de desvalidos. Há que desenvolver toda uma pedagogia para decifrá-los.

 

Mas a cidade também é a expressão de negociações, acordos, pactos, consensos, às vezes bem sucedidos, outras vezes não, estas, com se sabe, em maior número. Essa complexidade se vê todo santo dia na luta diuturna pela posse de um canto qualquer, defendido até a morte com os caninos à mostra, seja para moradia ou trabalho. As fronteiras invisíveis na metrópole, os bairros costurados com a linha dos conflitos, o loteamento clandestino, as ocupações, o empreendimento imobiliário de alto gabarito. A falência dos planos diretores, as propostas mirabolantes que nunca se realizam, os arranjos miúdos que só mal fazem. A cidade deveria ser de todos e de ninguém, esta uma necessária utopia. Cuidar dela diz respeito a todos nós, “cada um na proporção que lhe cabe”, como queria William Morris.

 

Muito disso se acha na polifonia urbana, nas muitas vozes que caracterizam a cidade, de modo especial na relação que esta mantém com as linguagens artísticas. É ótimo quando esse alarido resulta de um trato democrático, de um encontro proveitoso entre vontades distintas. É péssimo quando é apenas narcísico, falsamente transgressor ou insolente, tornando-se mera gritaria de tom único e nota só. O sutil contraponto estabelecido entre os diversos tempos e as manifestações materiais e imateriais da cultura urbana agrega valor e qualidade a qualquer cidade. O desrespeito à alteridade, o menosprezo à expressão do outro, a desconsideração dos inúmeros textos não-verbais, escritos por aí à base de tijolo, cimento, taipa e papelão, entre outras matérias, são, além de cruéis, impeditivos a uma sadia urbanidade.

 

Tudo isso me ocorre ao lembrar-me de quando divisei, de dentro do táxi veloz, há alguns meses, o painel “Eva”, instalado na Av. Domingos Olímpio. Uma mulher negra, de cabelo encarapinhado, carregando inúmeros bebês num cesto colorido. Metáfora da criação do mundo? Ação de empoderamento feminino? Denúncia da dramática e injusta condição a que a sociedade submete a fêmea? Para mim, arte urbana em sua melhor expressão, fazendo-nos refletir sobre a existência ao tempo em que nos deliciamos com a riqueza das cores e texturas. No meio da via árida e sem graça, um pouco de poesia, “um cacho de uvas”, como dizia Ezra Pound. Numa palavra: a concretização, no dizer de Henri Lefebvre, do direito à cidade “como um apelo, como uma exigência”, do direito à vida urbana como “supremo bem entre bens”.

 

Por Romeu Duarte

Adriano Nogueira

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