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Boca de beijar

2018-02-26 01:30:00
Era de uma loucura por beijo. Fazia tudo, de tudo, por um beijo. Não lhes negassem um beijo por nada. Antes a morte! Embora, entre últimos suspiros, não abrisse mão, digo, a boca, do derradeiro beijo.

 

Fosse uma mocinha inexperta, pregada à soleira dos castos anos, a avistar ao longe as guirlandas de uma ingênua paixão, vá lá! Mas ouvir de um homem feito, quarentão, mais vivido e passado do que colarinho de político, o discurso meloso sobre um mero beijo, soava para nós tal qual uma extravagante promiscuidade. 

 

De fato, Nicolau era um homem comum, sem nenhum dote a justificar o aparente sucesso com as mulheres. De novo, apenas aquela devoção à teoria sobre o beijo, que, em alguns momentos, para nosso deleite de mesa de bar, assumia um tom sobrenatural:

 

– O beijo, meus amigos, não duvidem, é o mais poderoso afrodisíaco que há na Terra. Escolho as mulheres pelo beijo. Entrego-me àquele que me há de ser sempre doce e profundo, pleno, demoroso, longo e largo como uma vida inteira...


Daí, em torno de um Tristão de olhos cerrados, surgia uma aura frouxa, como rósea névoa, a lhe tomar o rosto e o peito, enquanto naqueles lábios subitamente tácitos, eu juro, podíamos sentir a presença do fruto etéreo em sua boca fanaticamente desejada.

 

Não era segredo para ninguém. Aliás, ele mesmo fazia questão de espalhar a sua tara por bocas. Até as mulheres que, por fado, lhe caiam na conversa, sabiam da sua fama de imodesto e cobiçoso beijador. No começo, foi levado no pagode, mas depois, com o tempo, veio o incômodo da vizinhança. Suas vítimas avolumavam-se dia após dia. O inaceitável é que, após o previsível desenlace, elas sofriam horrores, dignas de uma viuvez de falecido vivo. Maldiziam o desgraçado, choravam às esquinas, mas nunca que jamais o esqueciam. Por toda a região se sabia: “Ai de quem as tivesse depois de Nicolau...”

 

Ó único que parecia não se inquietar com isso era o próprio Nicolau, a se passar tão serelepe quanto antes, entregando os beiços sedentos a novas candidatas seduzidas pela experiência idílica de seu beijo vicioso.


Os outros rapazes, num misto de vergonha e incompetência, passaram a hostilizá-lo, assim como os familiares das ex-namoradas. Afinal, lhes parecia inconcebível aquela impudica e inarredável dependência pela boca alheia, o que fez com que o galã se visse obrigado a sair menos às ruas. E, quando o fazia, era um rebuliço: as mães cerravam as janelas dos quartos das moçoilas já inclinadas à tentação, enquanto procuravam, com custo, segurar as demais, ainda por ele encantadas, na busca desesperada de uma calorosa reconciliação.

 

Numa manhã, o inevitável: “Nicolau foi encontrado morto, provavelmente a pauladas, numa vereda do boqueirão”, contou-nos, com descarado alívio, o delegado, pai de uma das moças beijocadas pelo “libertino”.

 

Deste modo, muitas mães também eufóricas ao receberam as “boas novas” abriram as cortinas e as janelas das alcovas de suas filhas que, assim como outras surpresas e honradas mulheres, naquela mesma manhã, despertaram, para o espanto geral, sem bocas.


Gabrielle Zaranza

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