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Uma tragédia próxima, a 2,3 mil km de distância

Érico Firmo
01:30 | 05/01/2018
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A rebelião no Complexo Prisional de Aparecida de Goiânia é uma tragédia humana perigosamente próxima dos cearenses e todos os brasileiros. Está perto para além da empatia com os nove seres humanos assassinados cruelmente, um deles que teve as vísceras retiradas de dentro do corpo e penduradas com arame do lado de fora do presídio. É um horror cujo espectro está tenebrosamente próximo.


A expansão das facções criminosas interligou em rede detentos de todo o Brasil, de forma muito mais intensa, concreta, orgânica e descentralizada do que as forças de segurança pública jamais conseguiram fazer. A capacidade de articulação permite-os espalhar o terror antes que os gestores públicos saibam o que caiu sobre as cabeças deles;


Em janeiro de 2017, rebeliões começaram em presídios do Norte e espalharam efeitos pelo País. Na primeira quinzena do ano passado, 56 morreram no Amazonas, 31 em Roraima, 26 no Rio Grande do Norte. Em Minas Gerais, nove ficaram feridos. No Paraná, 28 fugiram.

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Para além do efeito momentâneo, as rebeliões foram sinal de que a trégua entre facções havia terminado e demonstração do poder de força que elas têm. A brutalidade vai além da crueldade - óbvia condição para que os atos sejam realizados. Porém, há também um recado a ser dado. A violência é forma de comunicação e propaganda para as facções.

 

A partir daí, a violência foi desencadeada em toda parte. O Ceará, que vinha de 2016 com os melhores resultados na segurança pública em muito tempo, viu o recrudescimento da violência. Pela primeira vez, o Estado ultrapassou os cinco mil homicídios em um ano.


Essa calamidade teve como estopim as rebeliões em estados tão distantes quanto Amazonas ou Roraima. São questões que, para além da competência ou incompetência dos gestores estaduais, não podem ser resolvidas no plano local. As facções são interestaduais, algumas internacionais. O problema é maior que qualquer estado.


Por isso, a emergência em Goiás deve deixar em alerta todo o País, em particular os responsáveis pela segurança pública. O ministro da Defesa, Raul Jungmann, afirma que a situação goiana está monitorada e não hás risco de efeito cascata por outros estados.


Talvez o Governo Federal esteja muito seguro e resguardado de riscos. Porém, os problemas normalmente ocorrem quando se julga que eles não irão acontecer. Ex-secretário da Segurança Pública do Ceará, Delci Teixeira chegou a dizer que os que se supunha membros de facções eram, na verdade, “pirangueiros” cujo maior risco que representavam era jogar “pedra no vidro da janela de uma delegacia”.


Delci deixou o cargo na virada do ano passado, por decisão própria, dias antes de a crise das facções explodir. Talvez tenha sido coincidência, ou talvez estivesse mais bem informado do que parecia, meses antes, ao demonstrar minimizar a ameaça representada pelos grupos organizados.


A EMERGÊNCIA ESTADUAL E A OMISSÃO FEDERAL

Governadores do Nordeste reiteradas vezes já pediram socorro federal para conter a crise da segurança. Ontem, governadores de Goiás, Distrito Federal, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins, Rondônia e Maranhão lançaram manifesto no qual cobram a União. É um pedido de socorro.

Em comum com os governadores do Nordeste, a proposta de um fundo nacional para financiar a segurança pública. Ideia similar havia sido levada pelos nordestinos a Michel Temer (PMDB) em maio do ano passado. O presidente respondeu com a clássica resposta de quem não quer resolver: propôs formar uma comissão para negociar o assunto. Faz oito meses e o fundo não nasceu.

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