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A inclinação à esquerda da eleição sem Lula

01:30 | 03/01/2018
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Os bastidores do Judiciário fervilham com especulações sobre o desfecho do julgamento de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) - e quase ninguém aposta na hipótese de o ex-presidente ser inocentado pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4). Se o petista ficar fora da disputa, o cenário eleitoral muda completamente. Obviamente, pela saída do líder nas pesquisas. Mas não apenas isso. O próprio discurso dos adversários muda numa eleição sem Lula.


A BUSCA PELOS VOTOS DESGARRADOS


Uma hipótese sobre o que poderá acontecer se Lula não for candidato. Por paradoxal que pareça, é possível que haja uma esquerdização da campanha, pelo menos nos discursos. Isso na tentativa de atrair o eleitor órfão do petista. O eleitorado do ex-presidente passará a ser o espólio mais valioso, provavelmente decisivo.


O caminho para atrair esse voto é incerto. Aproximar-se do discurso de Lula é o caminho mais óbvio. Isso significará uma inclinação esquerdista, sim. Mas não apenas. O petista tem trajetória de esquerda, obviamente, mas o fascínio que exerce entre simpatizantes vai além de ideologias. Envolve apelo radicalmente popular, muito além de plataforma política. Passa pelo linguajar, pelas referências, pelo universo cognitivo. Inclui, obviamente, enorme carisma. Não é algo fácil de copiar ou transpor.

 

Então, não basta fazer propostas tais quais as de Lula, porque o voto nele não é totalmente racional - há muito de emocional, paixão mesmo. E muita gente que vota nele não é de esquerda, talvez nem saiba o que é isso. É algo que vai além das estruturas convencionais da política. Porém, mais simples que mimetizar Lula, falar como ele, ter tiradas como as dele, é aproximar-se das ideias. Então, uma eleição sem Lula terá discursos dos outros candidatos mais à esquerda do que uma eleição na qual ele esteja na disputa, sobretudo se mantiver a liderança nas pesquisas.

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Para entender o raciocínio: se Lula for candidato e seguir na dianteira, será duramente atacado e questionado - munição para isso não faltará. Porém, com ele fora, o movimento naturalmente será contrário. Lembra de quando Heitor Férrer (PSB) foi terceiro colocado na eleição para prefeito de Fortaleza, em 2012? E, no segundo turno, os candidatos passaram a paparicá-lo e ao eleitor dele? Ou, em 2014, quando Marina Silva (Rede) ficou em terceiro lugar e o eleitor dela se tornou objeto de disputa entre Aécio Neves (PSDB) e Dilma Rousseff (PT)?


Se isso ocorre quando o candidato fica em terceiro lugar, imagine-se quando se trata do líder em todas as pesquisas, com vantagens cada vez maiores.


Esse processo, a rigor, já começou. A candidatura de Ciro Gomes (PDT) aposta obviamente em se tornar a alternativa dos eleitores de Lula que ficarem sem candidato. Nas simulações até agora, a perspectiva é alentadora para o pedetista. Na última pesquisa Datafolha, Ciro chega a no máximo 7% nos cenários em que o petista concorre. Já nas simulações sem Lula, ele atinge 13% e teria chance de ir ao segundo turno.


Geraldo Alckmin (PSDB) é outro que tem feito movimentos em direção ao eleitor de centro-esquerda. Dentro do PSDB surgiu o movimento “Esquerda pra Valer”, com objetivo de realinhar a legenda a uma plataforma social-democrata, em contraponto à linha de inclinações liberais que tem sido moda. Do ponto de vista eleitoral, todavia, imaginar que o eleitor de Lula pode votar maciçamente em Alckmin é mais difícil.


CENÁRIO DA DISPUTA


O cenário de candidaturas tentando se apresentar como mais à esquerda fica ainda mais factível numa eleição na qual, sem Lula, o líder nas pesquisas passa a ser Jair Bolsonaro (PSC). Ele é a hipérbole de uma direita que ressurge e ganha espaço como negação dos anos de hegemonia petista. O discurso é beligerante o tempo todo e pressupõe a figura do inimigo. Sem Lula, porém, ele passa a ser o alvo — e com muitas fragilidades a serem atingidas.


Será curioso observar a postura de Bolsonaro numa disputa com essa configuração. Ninguém descarte que adote o estilo “paz e amor”.

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