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Na terra das oligarquias

01:30 | 14/11/2017

Na guerra retórica que se instalou na política desde a semana passada, sobre quem é mais oligarquia no Ceará, se o grupo comandado pelo senador Tasso Jereissati ou se a turma liderada pelos irmãos Ferreira Gomes (Ciro e Cid), um argumento parece se sobressair com algum fundamento a ser considerado. É do prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio (PDT), e O POVO publicou na edição de ontem. O que ele diz: “Há um grupo político que dá oportunidade e espaço para que novas lideranças políticas surjam e deem voz ao que pensam”. Traduzindo, no núcleo que se organiza em torno de Ciro e Cid há chances de nomes novos surgirem, crescerem e conquistarem espaço de protagonismo. Ele próprio, um jovem de 42 anos à frente de uma das maiores cidades do Brasil desde 2013, apresenta-se como exemplo. Camilo Santana (PT), governador do Estado desde janeiro de 2015, pode ser outro. É inegável, pelo que nos mostra a realidade dos fatos, que há chance maior de crescer sob a sombra dos irmãos sobralenses do que se vinculando ao senador tucano, por três vezes governador. A questão, porém, é que este fato, isolado, não descaracteriza o sentido oligárquico de como as coisas acontecem no dia a dia político de cada segmento.

Vale explorar um pouco mais os exemplos de Camilo e RC. As duas escolhas, que até se pode dizer que pareceram acertadas, pelo fato de virem demonstrando capacidade de manter as coisas sob relativa ordem em meio a uma crise de proporções gigantescas, nasceram de decisões quase que isoladas do ex-governador Cid Ferreira Gomes. Não há, que se conheça, um debate democrático, aberto, participativo, anterior ao anúncio de um e outro como candidato, respectivamente, ao governo do Ceará e à prefeitura de Fortaleza. No caso do petista, lembre-se, foi uma escolha imposta ao próprio partido, obrigado a refazer o que decidira em convenção para legitimar a aposta de Cid, então governador e à procura de um sucessor. Processo semelhante, embora um pouco menos traumático, deu-se no caso em que Roberto Cláudio virou o nome do grupo para disputa em Fortaleza, mais de cinco anos atrás. Uma prática que vai ao encontro do conceito clássico de oligarquia, onde se prevê a presença dela nas situações em que “o poder está concentrado em um pequeno grupo”. Tudo a ver, portanto.

O que há de diferença evidente em relação a como as coisas acontecem no entorno de Tasso Jereissati é, quanto a este, a absoluta falta de peças de reposição. O paradoxo é que foi exatamente ele, quase 30 anos atrás, quem descobriu talento naquele jovem e provinciano parlamentar sobralense para transformá-lo em líder de um governo que se instalava no Ceará para romper práticas e costumes. No mesmo estilo que levou às escolhas de RC e Camilo por Cid, Tasso impôs Ciro Ferreira Gomes logo depois como candidato à prefeitura de Fortaleza no distante ano de 1988, contrariando até a lógica legal (tratava-se de um eleitor de uma cidade participando da disputa municipal em outra, mas essa é outra história), da mesma maneira que foi determinante para, interrompendo o mandato de prefeito antes da metade, fazer dele seu sucessor no governo do Ceará. Talvez por decepção nunca admitida com o pupilo que ganhou voo próprio e que passou a ser uma pedra permanente no seu sapato, apesar dos gestos públicos mútuos de respeito, a verdade é que desde Ciro ninguém mais surgiu com força no cenário político sob a liderança do tucano, que foi mais duas vezes governador e está no segundo mandato de senador, para representar como grupo a continuação do seu pensamento político.

Chega-se à conclusão, no final das contas, que no debate público que é travado atualmente no Ceará os dois lados parecem ter razão. Aliás, como já explora em linguagem mais política (no sentido da disputa pelo poder) o pré-candidato do Psol ao governo, Ailton Lopes. Algo que, se considerando o teor fundamental do que é dito, podemos tomar como uma tragédia, mitigada pelo fato de as escolhas até terminarem sendo acertadas. A forma como se chega aos nomes, porém, dá razão a Tasso quando enxerga uma oligarquia do outro lado, na mesma dimensão em que justifica a reação irônica de Ciro ao devolver o petardo na direção de onde ele veio.

COM O PLENÁRIO RUIM, ESPAÇO PARA AS FRENTES

Vice-presidente para o Nordeste da Frente Parlamentar em Defesa da Soberania Nacional, o deputado federal cearense Odorico Monteiro (PSB) está empolgado com o que considera “sucesso” da reunião realizada em Fortaleza, na semana passada. O destaque, para ele, foram os discursos contundentes do presidente, senador Roberto Requião (PMDB-PR), e do ex-ministro e ex-governador Ciro Gomes.Para além do falatório, Odorico aponta avanços importantes no debate e a perspectiva dele vir a gerar ações futuras para reverter iniciativas atuais do governo Temer que considera ferirem a ideia de soberania nacional. “É crescente, por exemplo, a convicção de que precisaremos submeter a processos revogatórios, no futuro, muitas das medidas que têm sido colocadas em prática pelo governo atual”, anuncia o parlamentar.

Odorico considera as frentes parlamentares, hoje, um excelente espaço de ação a partir do Congresso. “O plenário está muito empobrecido pela polarização político-partidária insuportável e por uma pauta de votação quase que toda ocupada por Medidas Provisórias”, queixa-se o deputado cearense, que também integra a Frente Parlamentar em Defesa do SUS (da qual é presidente) e a Frente Parlamentar em Defesa do Sistema Único de Assistência Social (Suas).

AO LEITOR

Fim da brincadeira. Amanhã o espaço estará devolvido à qualidade do dono da coluna, Érico Firmo.

 

Guálter George

Jornalista, editor-executivo do núcleo de Conjuntura do O POVO / O jornalista escreve a coluna excepcionalmente hoje