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Fator Jereissati e contexto nacional

01:30 | 11/10/2017

Em 1994, Tasso Jereissati era presidente nacional do PSDB. Articulava a montagem dos palanques para a candidatura presidencial de Fernando Henrique Cardoso. Em meio às negociações de estratégia, FHC perguntou: e o Ceará? Ciro Gomes sairia do Governo do Estado para assumir o Ministério da Fazenda de Itamar Franco. Lúcio Alcântara, vice-governador, tinha tido estremecimentos com Ciro e seria candidato a senador. Sergio Machado, deputado que seria candidato a senador, havia longa data alimentava sonho de concorrer a governador, mas nunca teve respaldo de Tasso para tal. Já a oposição controlava Fortaleza e tinha um nome forte: Juraci Magalhães. O peemedebista terminaria a eleição com 37% dos votos válidos. Em toda era tucana, nenhum adversário teve esse desempenho no primeiro turno - nem Adauto Bezerra (1986) antes nem José Airton (2002) depois. O quadro era delicado.

Quanto ao hoje senador, ele estava envolvido em questões nacionais. Antes do Plano Real, chegou a negociar para ser candidato a vice de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Depois, ofereceu ao PT a vice de FHC. Nenhum dos movimentos vingou. Àquela altura, Tasso estava mais envolvido e interessado nas questões nacionais. Disse a FHC que não pretendia mais ser governador. O candidato presidencial tucano retrucou: em nome do projeto do PSDB, o candidato no Ceará precisaria ser Tasso. E assim foi. Ele teria mais dois mandatos de governador, apesar de não ter essa intenção em princípio.

A história é para dizer que o cenário nacional será determinante caso Tasso se convença mesmo a concorrer pela quarta vez a governador. Cabeça de chapa da oposição estadual em 2014, Eunício Oliveira (PMDB) integra a base do governo Michel Temer (PMDB), mas tem feito movimentos de aproximação com o governador Camilo Santana (PT), ligado ao grupo Ferreira Gomes (PDT). Há nesse balaio três, talvez até quatro pré-candidaturas presidenciais. O PDT tem Ciro Gomes, PT pretende concorrer com Luiz Inácio Lula da Silva, o PSDB disputará com Geraldo Alckmin ou João Dória, e nada garante que os tucanos terão apoio peemedebista, que pode construir outro palanque, talvez até com Dória fora do PSDB.

O fato é que os tucanos concorrerão e, caso Eunício se entenda com os Ferreira Gomes, o escolhido entre Alckmin e Dória para concorrer pode ficar sem palanque no Estado. O Nordeste já tem sido o calcanhar de Aquiles do PSDB há eleições seguidas e pode ser mais uma vez. Em dezembro, o partido definirá o presidente nacional. Há articulação, vista com simpatia por Alckmin, para que Tasso permaneça.

Caso o cearense seja confirmado à frente da direção nacional, sobretudo com Alckmin candidato, o cenário será parecido com 1994, quando Tasso nem queria muito, mas concorreu a governador.

MOVIMENTAÇÕES PELO NORDESTE

Tasso tem trabalhado na articulação de palanques, sobretudo no Nordeste. Na semana passada, o senador Roberto Rocha, do Maranhão, deixou o PSB e assinou ficha de filiação ao PSDB, ao qual já havia pertencido. Tasso e Alckmin estavam presentes na filiação.

Rocha chegou com status de pré-candidato a governador do Maranhão, contra Flávio Dino (PCdoB), que hoje comanda o Estado.

O QUE O HISTÓRICO REVELA

Tasso deixou o governo do Ceará há 15 anos e, em todo esse período, não deu qualquer sinal de que desejasse retornar ao comando do Poder Executivo estadual. Todas suas manifestações foram no sentido de defender a renovação, o aparecimento de nomes diferentes. Não é, portanto, por vontade que ele pode voltar a disputar a administração do Estado.
JEFFERSON RUDY/AGÊNCIA SENADO
JEFFERSON RUDY/AGÊNCIA SENADO

O ESTILO TASSO DE DECIDIR

Pelo histórico do senador, ele não decidirá uma candidatura sem ter pesquisas nas mãos que demonstrem ter chances de sair vitorioso. Também não deverá haver definição tão cedo. Irá costurar alianças, analisar cenário, aguardar adversários. A última aventura incerta na qual se lançou foi em 1986. Ele já sofreu derrota, em 2010. Mas, naquela época, ele aparecia como franco favorito. Ocorre que as circunstâncias — o peso de Lula, o papel desempenhado por Cid Gomes (PDT) — foram subestimadas e ele foi surpreendido. Pode acontecer, mas não por falta de preocupação com os preparativos.

O fato é que não haverá decisão agora, nem neste ano. Talvez em meados do primeiro semestre de 2018. Até lá, a intensidade com que irá se movimentar, o sucesso na articulação de bases no Interior serão fatores a demonstrar o quão interessado estará em entrar nessa disputa.

ÉRICO FIRMO