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As certezas e incertezas de Michel Temer

01:30 | Jul. 04, 2017
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A “quase absoluta certeza” do presidente Michel Temer de que a denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República será rejeitada, embora curiosa, revela-se como ato falho. Afinal, apesar de todos os sinais de maioria na Câmara dos Deputados, há sempre os tais fatos novos a assombrar o horizonte do Planalto. Temer sabe que, se fosse hoje a plenário, a acusação seria recusada. Mas o presidente conta o seu tempo não em dias, mas em horas. E, numa dessas, o pior pode acontecer.


Foi o que se viu ontem, por exemplo, com a prisão do ex-ministro Geddel Vieira Lima, um dos integrantes da tropa de choque do presidente. Óbvio que a detenção não será suficiente para produzir qualquer estremecimento na base do governo no Congresso. Mas não convém minimizá-la. Salvo se algum juiz acabar libertando o peemedebista, Geddel, que também é investigado pela Justiça no Ceará no caso da adutora do Castanhão, quando ainda era ministro de Lula, pode começar a pensar em falar. Se fará delação ou não, é cedo para dizer. Mas, se resolver fazer, pode comprometer os principais caciques do PMDB - aqueles que ainda não estejam seriamente comprometidos.


A preço de hoje, porém, o político baiano que deixou o governo depois de escândalo envolvendo interesses de uma construtora em Salvador dificilmente terá outro comportamento senão esperar. A Operação Lava Jato tem enfrentado um teste duríssimo de realidade. Não apenas pela revisão de decisões do juiz Sergio Moro na segunda instância, mas pelas recentes posturas adotadas no âmbito do Supremo. Somado, tudo isso indica que a investigação é uma na primeira instância e outra nas instâncias subsequentes.

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Com o arrefecimento do ânimo das ruas, que se mantêm caladas a despeito da temperatura política, a tendência é que a ação perca força gradativamente, podendo chegar a 2018 domesticada. Nesse cenário, o futuro imaginado por Sergio Machado e Romero Jucá pode estar mais perto do que nunca. Em diálogo grampeado pela Polícia Federal ainda no ano passado, Jucá, hoje líder do governo no Senado, sugeriu “estancar a sangria” num “grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo”.


Se o acordo foi feito ou não, é impossível garantir. O fato é que, diferentemente de um ano atrás, quando a operação que nasceu em Curitiba punha o mundo político em polvorosa, hoje a Lava Jato tem menos força e reverbera menos na imprensa. Os atuais alvos de Moro, Edson Fachin e Janot sabem disso. Lula também. Se tiverem paciência e energia para a disputa na opinião público, será possível vê-los nas próximas eleições.

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ENQUANTO HOUVER BAMBU...

Apesar disso, a depender do procurador-geral da República Rodrigo Janot, a beligerância continua. Para quem acreditou que a indicação de Raquel Dodge para o cargo de chefe da PGR colocaria água na fervura de Janot, ledo engano. No último fim de semana, instado pela jornalista Renata Lo Prete no Congresso de Jornalismo Investigativo da Abraji, o procurador respondeu: “Enquanto houver bambu, lá vai flecha”.

Janot se referia à acusação contra o presidente Michel Temer em andamento e às que ainda estão por vir. No Congresso, Temer peleja para montar um anteparo que possa livrá-lo das espetadas de Janot, que, como ele mesmo fez questão de lembrar, ainda tem a caneta nas mãos. Pelo menos até 17 de setembro.

 

Henrique Araújo

Jornalista, editor-adjunto de Conjuntura do O POVO

Escreve esta coluna interinamente de terça a sábado

 

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