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Temer, Lula e a Lava Jato

01:30 | Jun. 28, 2017
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Há algo que aproxima Temer de Lula: a estratégia de enfrentamento aberto na Justiça como única via de escape ao rosário de acusações que lhes pesam na esteira da Operação Lava Jato. Com algum sucesso, o petista tem levado essa briga adiante, mas encarando como oponente o juiz Sergio Moro. Temer segue os passos do ex-presidente ao antagonizar com Rodrigo Janot, procurador-geral da República. O argumento é o mesmo tanto num caso como no outro: perseguição.


O objetivo de ambos é converter o processo de investigação em queda de braço, fulanizando-o ao máximo a fim de transferi-lo da arena jurídica para a política, cujas regras conhecem bem. Assim, Lula mobiliza sua tropa nas ruas e acende a militância de olho em 2018, seu único horizonte de redenção. E Temer articula seus aliados no Congresso, de modo a rejeitar a denúncia de Janot e sobreviver até o ano que vem. Os dois sabem que estão toureando um adversário duro de bater, mas não há muito o que fazer.


Para Lula, o plano tem dado resultado, como mostra o último levantamento do Datafolha, no qual o ex-presidente lidera cenários de disputa no primeiro turno, a despeito dos cinco inquéritos dos quais é alvo. Funcionará com Temer? Não se sabe ainda, mas usar essas armas requer certa perícia e um tanto de carisma, dois atributos que Lula domina como ninguém. Não é o caso do atual presidente.

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Ciente disso ou não, o peemedebista desferiu ontem o mais duro golpe contra Janot desde que virou uma espécie de gazela atravessando distraidamente a savana do chefe da PGR. Temer não apenas negou as acusações de corrupção passiva, mas sugeriu que o procurador se beneficiou dos gordos honorários pagos pela JBS ao advogado que negociou o acordo de Joesley Batista com o Ministério Público Federal, um ex-auxiliar de Janot. A PGR rebateu. “Há fartos elementos de prova contra Temer”, assegurou o MPF, que prepara outras duas denúncias, previstas para chegarem à Câmara no início da próxima semana.
A guerra foi declarada e os exércitos ocupam o xadrez político-jurídico.


Em seu pronunciamento, lá pelas tantas, em meio a frases que pretendiam denotar firmeza, mas pareciam apenas débeis diante da incontornável imagem de Rodrigo Rocha Loures correndo com uma mala nas mãos, Temer deixou escapar: “Não sei como Deus me colocou aqui”. Foi uma das poucas coisas sinceras ditas pelo presidente.

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À ESPERA DE UM MILAGRE

Ontem, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TFR-4) reviu uma sentença do juiz Sergio Moro no caso João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do PT condenado a 15 anos de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Por dois votos a um, a turma encarregada de julgar o recurso da defesa de Vaccari entendeu que havia insuficiência de provas para ratificar o juízo do magistrado de primeira instância.

De algum modo, é nisso que se fiam também outros acusados na Lava Jato. O TRF-4 é o tribunal responsável pelas ações que questionam as decisões de Moro. É a ele que a defesa de Lula irá recorrer caso o juiz condene o petista nos próximos dias.

 

Henrique Araújo

Jornalista, editor-adjunto de Conjuntura do O POVO

Escreve esta coluna interinamente de terça a sábado

 

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