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E Michel Temer vai ficando

01:30 | Jun. 15, 2017
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Prestes a completar um mês de agonia desde que O Globo publicou reportagem informando que o presidente havia dado aval para a compra do silêncio do deputado cassado Eduardo Cunha (PMDB), Michel Temer vai sobrevivendo. Aos trancos e barrancos, o peemedebista escapou da cassação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), reorganizou sua base no Congresso, conteve a fuga do principal aliado, o PSDB, e ainda conseguiu driblar o questionário da Polícia Federal com 82 perguntas que eram verdadeiras cascas de banana. Entre elas, uma que o Brasil inteiro ainda quer saber: afinal de contas, quem é o “Edgar”?


A esta altura, não interessa ao presidente responder. Mesmo fragilizado e refém de uma agenda voltada para a própria defesa, Temer trava uma guerra todo dia, a principal delas contra o tempo, que ora precisa fazer avançar rapidamente, ora com mais vagar. Hoje, o presidente tem pressa, principalmente para que a denúncia do procurador-geral da República Rodrigo Janot seja apresentada e o Congresso a rejeite, tudo isso num prazo estipulado pela própria base aliada de dez dias. A rapidez sugere que, pelos cálculos do Planalto, há maioria para arquivar a ação, que apura os crimes de obstrução de justiça, corrupção passiva e participação em organização criminosa.

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O que ainda pode desestabilizar Temer? Os tais fatos novos, cuja capacidade explosiva está diretamente relacionada aos atores envolvidos. Por exemplo: o ex-deputado Rodrigo Loures pode esclarecer em breve a quem se destinavam os R$ 500 mil na mala que ele carregava. Já o doleiro Lúcio Funaro, ligado a Cunha e a Moreira Franco, tem potencial para elucidar o esquema de arrecadação de propina a partir do fundo de investimento da Caixa Econômica.

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Tudo isso é péssimo para o governo, mas seria suficiente para levar o presidente à renúncia ou a que perdesse maioria parlamentar? Arrisco uma resposta: não. Ainda que o PSDB tenha resolvido permanecer apoiando o PMDB com um pé fora da Esplanada dos Ministérios, há um fator que confere liga difícil de se romper a toda a base de Temer e mesmo aos partidos de oposição: a luta contra o avanço da Operação Lava Jato. Se nem todos desejam que Temer continue à frente do País, a maioria do Legislativo tem interesse em dificultar os caminhos da força-tarefa, seja na primeira instância, seja no Supremo Tribunal Federal (STF).


Dito isso, Temer está assegurado na cadeira de presidente até 2018? Dois fatores devem ser observados. O primeiro: ruas. Enquanto estiverem caladas, vazias e resignadas, o Congresso, formado em boa parte por investigados pela Lava Jato, ditará os rumos da vida política, que se pauta hoje sobretudo por uma palavra: sobrevivência. O segundo: Lava Jato. Mas, depois da explosão que foram os grampos dos irmãos Batista, que outro elemento pode ser tão forte a ponto de desestruturar a base do governo? A prisão de Aécio Neves, hoje afastado do mandato? A denúncia dos ministros que cercam Temer (não custa lembrar que um terço dos auxiliares do presidente na Esplanada é investigado)?


O mês de julho é o Rubicão para Michel Temer. Caso consiga atravessá-lo, dificilmente será arrancado do Planalto, seja por meio de impeachment, seja por renúncia ou afastamento por ação penal via Supremo. É preciso acrescentar um elemento: o mandato de Janot expira em setembro, quando outro procurador assume a PGR em seu lugar. Temer indicará alguém da lista tríplice ou preferirá um nome que possa eventualmente arquivar inquéritos ou denúncias contra ele ou seus colaboradores? O futuro dirá.

 

Henrique Araújo

Jornalista, editor-adjunto de Conjuntura do O POVO

Escreve esta coluna interinamente de terça a sábado

 

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