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Nem Lula convence, nem provas são cabais

2017-05-12 01:30:00

As leituras sobre o depoimento de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) lembram muito as análises sobre desempenho dos candidatos em debates eleitorais. Quem é a favor acha que foi um sucesso absoluto, quem é contra considera um desastre. A avaliação que conta mesmo é do juiz Sergio Moro. Ele vai decidir se Lula foi convincente ou não. De minha parte, não creio que tenha sido muito bom nem muito ruim para nenhum dos lados. Ficou dentro do previsto num processo no qual argumentos de lado a lado já são fartamente conhecidos. Fundamentalmente, ficaram evidenciadas fragilidades na acusação e na defesa. As poucas novidades que houve pesam contra Lula.


No todo, ele não se saiu mal. Em dado momento, Moro interveio quando o advogado questionava pergunta do Ministério Público e falou: “Ele está indo bem”. O juiz reconheceu isso sobre Lula. Porém, o ex-presidente sai do depoimento mais vulnerável do que entrou. O que não significa haver elementos para condená-lo.


Lula reprisou a estratégia da época do mensalão ao tentar se esquivar das responsabilidades. Não creio que tenha sido convincente. Ficou mal explicado o encontro com o ex-diretor da Petrobras Renato Duque, num hangar do aeroporto de Congonhas. O ex-presidente confirmou em parte o depoimento de Duque.


Segundo o ex-diretor, Lula queria saber de possíveis contas no Exterior. Até aí, o petista confirmou o relato. A sequência diverge. Segundo Duque, Lula deu instruções para apagar rastros de dinheiro que houvesse na Suíça. O ex-presidente informou apenas que ouviu do ex-diretor que não havia conta alguma e o assunto se encerrou. De todo modo, o encontro ocorreu quando a Lava Jato já era de conhecimento público. É intrigante que Lula, como ex-presidente, tenha se preocupado com a possível conta de Duque e não tenha tido mais curiosidade sobre o esquema de corrupção descoberto.


Menos convincente ainda foi quando Lula respondeu sobre documento de adesão ao apartamento no Guarujá. Simpatizantes de Lula viralizaram o questionamento do ex-presidente sobre a falta de assinatura no papel, o que é uma baita fragilidade. Porém, não deixa de ser estranho que o documento sobre o assunto tenha sido apreendido na casa de Lula, sem que ele saiba como foi parar lá.


O ex-presidente não se limitou a jogar muitas das responsabilidades sobre a ex-primeira-dama Marisa Letícia, que não pode se defender, negar ou confirmar nada. Ele tentou se desvincular até mesmo de nota do Instituto Lula, de 2016. O texto afirmava que as reformas seriam incorporadas ao valor final, mas a negociação não se confirmou em função da polêmica. Versão diferente da que Lula apresentou. Ele falou que não sabia nem tinha orientado reformas. Que não comprou o triplex por não ter gostado do imóvel. Que Marisa Letícia chegou a manter o interesse para investimento. Diante da contradição, Lula afirmou que nem sempre é consultado sobre as notas. Ocorre que a entidade foi muitas vezes escalada para falar em nome dele. De onde o instituto tirou, então, essa versão? Há outras afirmações feitas pela entidade que não procedem?


Lula também tirou o corpo fora quando questionado sobre o porquê de a empreiteira OAS ter continuamente pago o aluguel de espaço da Granero para armazenagem de presentes recebidos quando era presidente. Ele jogou tudo para o instituto, como se não tivesse usufruído.


Em síntese, várias fragilidades de Lula ficaram expostas. Por isso, ele sai em situação pior do que chegou.


AS PROVAS?

A acusação não conseguiu deixar Lula sem respostas. Não o emparedou. Ele só se recusou a responder, por orientação do advogado, sobre mensalão e sítio em Atibaia, que não dizem respeito ao caso.

O interrogatório deixou claro que não há provas cabais de que o triplex é de Lula. Provavelmente, não haverá. Dificilmente há em casos de corrupção. A questão é saber se os indícios existentes serão considerados suficientes para condenar o ex-presidente.


Lula tampouco comprovou não ser dono do triplex. Todavia, não é ele que precisa provar nada. Acusadores têm de expor a culpa. O depoimento deu elementos à acusação, mas nada conclusivo.


O DESFECHO

De tudo que houve até aqui, eu ficaria surpreso se Moro absolvesse Lula. Não tenho pretensão de saber mais do assunto que o juiz, nem de decidir de forma mais correta e consistente do que ele fará. Mas, do que se sabe até agora, pela falta de prova cabal, se eu fosse decidir hoje, provavelmente não condenaria o ex-presidente. Por precaução, por presunção de inocência. Por ser mil vezes preferível inocentar um culpado a condenar um inocente. Pelo princípio de, em dúvida, decidir-se a favor do réu.

E as dúvidas são inúmeras, ainda que, depois de quarta-feira, tenham ficado maiores em relação à inocência de Lula.

 

Érico Firmo

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