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Érico Firmo
01:30 | 11/03/2017
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A discussão sobre diferenciar caixa dois de corrupção parte agora do PSDB, mas já foi a ladainha usada pelo PT na época do mensalão. Os dois partidos têm origens, bases sociais, concepções e formas de atuação distintas. Mas, como se parecem quando apanhados fazendo coisa errada. O PT também dizia, ao tempo do mensalão, que o crime era “apenas caixa dois”. Crime fiscal, como define agora o advogado de Marcelo Odebrecht. O objetivo do discurso agora é o mesmíssimo de 12 anos atrás: atenuar a punição para caixa dois, que seria “crime menor”.


O problema não é o caixa dois em si, mas o porquê dele. Qual é mesmo o motivo para a doação de campanha ficar fora da prestação de contas oficial? Por que esse dinheiro não pode aparecer? Aí o assunto deixa de ser questão contábil sobre o que entra ou sai da planilha.


A Lava Jato tem sido bem mais competente em responder ao porquê de haver caixa dois, muito mais do que as investigações sobre o mensalão conseguiram ser. O dinheiro é subterrâneo porque foi obtido de forma ilícita ou tem finalidade ilícita. Simples assim. Ninguém usa caixa dois apenas por fazer mistério, gostar de segredinho.


A Lava Jato pega quase todo mundo: PT, PMDB, PP, PSDB e as forças menores. O movimento, com os tucanos à frente, tenta fazer o que o PT tentou e não conseguiu no mensalão: minimizar o escândalo em que está envolvido. Ocorre o seguinte: ele é gigantesco.


O que me admira é a cara de pau de os tucanos usarem o mesmo raciocínio que os petistas usaram e foi, corretamente, rechaçado pelo próprio PSDB.


Enquanto eles tentam desviar todas as atenções para o caixa dois, é preciso estar atento para o que está além do caixa dois.


QUEM ASSUME A CULPA?

A transposição do rio São Francisco entrou na pauta política dos governos pós-redemocratização no governo de Itamar Franco. Estava no programa de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) quando foi eleito, em 1994. A obra foi anunciada por FHC em 1996. Novo anúncio ocorreu em maio de 1998, pouco antes de começar a campanha pela reeleição. O tucano nunca nem começou os trabalhos. Quando eleito, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) prometeu a transposição no primeiro mandato. Só iniciou mesmo em junho de 2007, no segundo mandato. A previsão era de que o primeiro canal e parte do segundo estivessem prontas em 2010. Faz sete anos.

A transposição passou, assim, por cinco presidentes. Foram sete mandatos, mesma quantidade que a ditadura militar inteira, incluídas as interinidades. Foram muitos problemas, irregularidades, denúncias, estouros de orçamento.


E os políticos brasileiros têm a desfaçatez de disputar os méritos. Cada um deveria era assumir sua parte no absurdo que se tornou o projeto.

[FOTO1]

O TÚNEL ALAGADO

Na época da construção dos viadutos do Cocó, quando foi levantado o debate sobre a degradação do espaço urbano decorrente dessas estruturas, a Prefeitura argumentou que não seria possível construir túneis no local. A alternativa seria menos agressiva do ponto de vista urbanístico. Cria menos barreiras à circulação e visibilidade, agride menos o entorno. Porém, argumentou a Prefeitura, o local alagaria. Fica em área de declive, próxima ao rio Cocó. Pois bem, a algumas centenas de metros dali, há viaduto. E ele ficou, na última quinta-feira, do jeito que se vê na foto acima.

Argumentava-se que ali, nas imediações do Iguatemi, não haveria o mesmo problema de alagamento, pela constituição do terreno. Quem disse isso errou. Não é o único túnel em Fortaleza que alaga. Em chuvas de anos anteriores, ao menos, túnel no Mondubim ficou em situação ainda mais crítica. Na Santos Dumont com Via Expressa, os problemas são recorrentes. O único caso em que alagamento foi impedimento à construção de túnel foi no que provocou o corte de quase 100 árvores e avançou sobre um pedaço do Parque do Cocó.


De todo modo, acho pouco provável que o shopping Iguatemi tivesse topado um viaduto em suas imediações, caso alguém dissesse que o túnel iria alagar e, portanto, seria inviável.

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