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Novembro Despedaçado

01:30 | 09/11/2018

 

Todo novembro, como que atraído por uma força atávica, volto às minhas origens; feito um elefante velho que treina, quando pressente em si o cheiro da morte, sua última viagem de volta ao seco e distante torrão natal. Novembro de parar a vida e esperar por algum sinal do tempo. Novembro de comemorar esse marco ilusório da passagem dos anos; novembro de juntar os cacos de um ano difícil de atravessar. Novembro que deveria ser de minhas esperanças promete ser de nossas desesperanças. Novembro de acompanhar o titubear dos filhos na vida. Novembro de recordar os velhíssimos amores, desses que temos medo até de lembrar para que não sejam maculados pelo frio presente. Novembro antigo, mas ao mesmo tempo novinho em fraudas (dessas de algodão, presa por um broche que ninguém mais usa). Novembro de minhas antiquadas saudades: dos jogos de bola e bila, trisca e fuzila, triângulo e arraia (quantas vezes ainda sonho um sonho feliz desses de acordar chorando e rindo ao mesmo tempo; sorriso e soluço perfurando a madrugada já se avermelhando). Novembro mesmo desses de ter esperanças até com a brisa balançando a rosa dos ventos deixada pelo vizinho que faleceu faz anos e que, magicamente, puxa um fiapinho da teia de aranha da memória que traz baixinho os longínquos balidos de chocalhos das criações no curral atrás da casa. Novembro das últimas chuvas do caju, daquelas que em vão procuramos na cozinha uma lata amassada para pôr debaixo da biqueira só pra tentar reconstituir os sons de uma velhíssima lembrança já quase apagada. Novembro que restam poucos, talvez quase nada. Novembros mirrados que talvez por isso devam ser agarrados com unhas e dentes, para que não se esvaiam assim facilmente como todos os outros. Novembro de muitos laços a serem desatados com sopros e cantos de olhos e unhas. Novembro de muitos nós.

 

GOTAS AMARGAS

Doutor corrupto de nascença e longa tradição familiar lança salmos diários em grupos religiosos da internet, quem sabe um dia não acerte no Salmo da Hipocrisia.

 

Conterrânea bajuladora de autoridades cospe no prato em que comeu por anos (esquecendo-se de quando vivia mendigando emprego pra sustento da família e em agradecimento vivia elogiando a deputada e o partido, os mesmíssimos que hoje qual Judas cospe e escarra).

 

Terceirizada que faz tratamento pra Aids usufruindo a quebra de patente dos caríssimos remédios feita pelo Sapo Barbudo, além de ter ganhado apartamento pra ela e outro pra filha mãe solteira no projeto Minha Casa, Minha Vida e serem todos os seus familiares inscritos no Bolsa Família e outros programas do antigo governo para os mais necessitados, pois bem, essa digníssima senhora era a mais fervorosa cabo eleitoral de Bolsonaro na repartição.

 

Amiga evangélica, uma santa de véu e pernas cabeludas, defende a tortura e põe foto da filhinha em pose de tiro e ódio. Esquecendo-se de que o seu Senhor Jesus é o símbolo dos torturados.