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Buzzatianos

01:30 | 12/10/2018

Nós, os filhos de Kafka com Buzzati, sempre nos imaginamos numa Cidadela fortificada, tentando preparar nossas defesas contra um inimigo invisível (que muitas vezes está bem dentro de nós); e as buscas do agrimensor pelo misterioso castelo (engendrada pelo funcionário de uma companhia de seguros chamado Franz) ou a longa espera pela improvável batalha intuída pelo soldado de fronteira (imaginada pelo jornalista do Corriere della Serra Dino) não são mais do que assustadoras metáforas, como também foram os relatos do mineiro Murilo Rubião e do goiano José J. Veiga.

 

Quando imaginei esse continho que segue não sonhava que passaríamos por momentos tão críticos e perigosos, em que nossa frágil democracia teria que ser defendida tão ardorosamente de inimigos que pareciam confinados para sempre na cartola do coelhinho Teleco ou nas dobras das vestes de reis barbados; e parafraseando Brecht (que já foi maravilhosamente plagiado pelo baiano Eduardo Alves da Costa): Por não estarmos fazendo quase nada, não poderemos sonhar mais nada!

 

DEFESA

(O construtor calculava com gestos largos o espaço a ser preenchido pelo fosso, anterior ao muro de proteção.)

 

Erguia o velho mapa do terreno para enxergar melhor, aproveitando os últimos raios de sol; apontava com o indicador vacilante em uma e outra direção, como se pedisse conselhos a um ajudante imaginário. Os empregados cavavam fundo o alicerce da parte virada para o rio. Conferia ele mesmo os tijolos reforçados que seriam usados na encosta do morro. Havia desistido das árvores que poderiam também esconder perigos.

 

(Explicando a um operário de modos rudes a posição de defesa, riscava com a unha uma linha reta atravessando o bosque.)

 

"Usem a liga na argamassa, nem um raio penetrará no recinto", nunca utilizava a palavra fortificação e seus sinônimos, como se assim já estivesse executando um plano de contenção. Também o inimigo jamais era tratado como tal, nesse caso novamente utilizava palavras amenas.

 

"Quem descer do morro..." encontraria a barreira perfeita, alicerces até a rocha pura, sobre a qual se ergueriam os invencíveis muros.

 

A liga para unir os blocos fora invenção antiga, e somente dois mestres no mundo sabiam sua composição. Trabalhava nela antes da chegada dos serventes, madrugada ainda.

 

Mudava de equipe a cada ano, desconversava quando lhe inquiriam sobre a estranha fortaleza que se erguia a oeste do pequeno povoado, com vista privilegiada para o rio que fora a entrada de todos os invasores.

 

(E não somente mandava, corria as tardes a tanger ventos, a sussurrar preces - as mãos calejadas escorrendo o suor da fronte.)

 

Sabedor de que era o último de sua geração, o único a trazer no sangue as senhas dos primeiros invasores, continuava os preparativos para a batalha final. A abertura restante de entrada e saída tinha sido camuflada com muito cuidado, os dois derradeiros blocos, depositados por dentro, ao lado da farta argamassa, esperavam apenas o penúltimo e estudado movimento, quando então a última etapa do seu famoso plano de defesa seria executada, para espanto de seus atônitos inimigos, que nunca, em tempo algum, haviam perdido uma batalha.