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Talento!? (Parte 3)

01:30 | 14/09/2018

 

Talento!? (Parte 3)

(continuação do texto publicado dia 31/8)

Mas penso: Cada livro, cada conto, cada poema não exigiria (seria melhor falar "não necessitaria de") uma maneira própria de ser escrito? Acho que "sim" e "não" também. "Sim" porque alguns escritores muitas vezes abusam das "fórmulas" descobertas, do êxito alcançado por determinadas livros seus, e criam assim como uma "fôrma" na qual cabe tudo: um conto alegre e um triste, um de suspense e um de aprofundamento psicológico. Vemos tais características em escritores de renome, mas muito mais em iniciantes, que na maioria das vezes não pensam, antes de escrever uma história, qual "voz" dará ao seu personagem (quando em primeira pessoa). Ana Miranda certa vez afirmou que só começa um livro quando "descobre" a voz do personagem (que em terceira pessoa pode muito bem ser a do narrador). Certa vez a vi copiando um livro enorme de determinada época histórica somente para tentar adquirir a "voz", a cor, o cheiro, o ritmo, daquela época. Também responderia "Não" porque acho importante que, mesmo encontrando uma maneira própria para cada caso literário, o escritor tenha uma característica sua marcante, mesmo que não tão óbvia e superficialmente visível, que permeie seus livros, um a um. Algo como, me falta palavras apropriadas agora, uma "alma subterrânea", que os seus leitores mais atentos, constantes e sensíveis, vão encontrar em qualquer um de seus escritos. Não seriam pontos de vistas contraditórios os meus? Como não sucumbir às armadilhas fáceis de um estilo próprio, de uma "fôrma" pronta a ser usada em situações distintas? E como adquirir essa voz subterrânea pessoal e não parecer que escreve sempre o mesmo livro, o mesmo conto, o mesmo poema? Perguntas difíceis de serem respondidas como uma fórmula. Cada autor deve tentar fazer uma obra singular, sim, pensada com esmero, paciência. Talvez tenha sido isso o que o escritor que afirmou que o talento não é nada mais do que uma longa paciência tenha querido afirmar nas entrelinhas.

 

Para fechar essas minhas ingênuas divagações, digo que aprendi uma coisa muito importante com o mestre moderno do conto, o russo Tchekov, ao afirmar que a arte deveria estar mais preocupada em fazer as perguntas certas do que em encontrar respostas verdadeiras.

(leia as duas partes anteriores em www.opovo.com.br/jornal/colunas/pedrosalgueiro)