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O livro inédito de Nilto Maciel

2018-05-04 01:30:00

Ao falecer, o escritor Nilto Maciel “tocava” vários projetos, organizava arquivos, catalogava cartas, reproduzia fotografias em novas mídias etc. E essa preocupação com o passado parecia anunciar aos amigos mais chegados que ele pacientemente se despedia da vida; mas ao mesmo tempo “plantava” projetos futuros: escrevia memórias, resenhas e artigos, e pelo menos um romance inédito (“Esse vai ser meu Ulisses”, sussurrou do nada numa tarde de conversas, com um brilho de esperança nos olhos e aquela ironia que lhe era tão própria) ficou inacabado nos arquivos do computador.


Outro inédito foi o livro de contos A fina areia das dunas, vencedor de Edital da Secult/CE e que ficou apalavrado com a Editora Dummar, que dependia do recebimento da verba pelos herdeiros para que pudesse ser editado. A obra continua inédita, dependendo da boa vontade da família do escritor. Enquanto isso nós, seus amigos e leitores, continuaremos esperando esta importante obra daquele que foi um dos nossos maiores escritores de ficção.


Porém, na dúvida se algum dia esse “canto do cisne” de Nilto Maciel será realmente publicado, trago à luz a “orelha” que me foi pedida por ele e Albanisa Dummar para o livro inédito.

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“Um escritor em estado puro”

Nilto Maciel é o escritor mais dedicado à literatura que eu conheço: convive com ela, intimamente, 24 horas por dia (e digo isso porque mesmo à noite, enquanto dorme, ele continua produzindo fiapos de enredos que passará para o papel na manhã seguinte, ou quando desperta assustado pelo sonho – ou pesadelo – em plena madrugada).

 

Dedicou sua vida inteira aos livros, passou de leitor voraz a escrevinhador de sua própria obra, mas sempre deixando tempo para a editoração e divulgação de outros escritores, seja através de antologias, revistas literárias e, mais recentemente, sites e blogs na internet. Sua cabeça criativa, inquieta, trabalha, pois, incessantemente, até enquanto se alimenta, conversa ao telefone, assiste à televisão (vários de seus contos tiveram origem em acontecimentos banais vistos em noticiários, ouvidos em diálogos de filmes assistidos pela metade altas horas da noite, até em anúncios e propagandas).


Escreveu romances, poemas, crônicas, críticas literárias, diários etc., mas foi ao gênero conto que ele dedicou mais tempo, força e talento. Ninguém escreveu mais histórias curtas do que ele no Ceará. Já ultrapassa as 300 narrativas, todas com qualidades comprovadas, como atestam os inúmeros prêmios e a vasta fortuna crítica.


A fina areia das dunas é seu décimo livro de contos, feito somente alcançado, em nossa terra, por Eduardo Campos e Caio Porfírio Carneiro. Nele a unidade não se encontra na temática (que é bem variada), nem no enfoque narrativo (inquieto que é, troca de posição a todo instante: às vezes demonstra a onisciência de um manipulador de marionetes, noutras desce quase à posição insegura de leitor comum), mas numa constante ironia, que anda de mãos dadas com uma insólita visão do mundo (pois, mesmo em seus contos mais realistas, ele sempre nos acena com sugestões fantásticas, muitas vezes surreais).”


 

Gabrielle Zaranza

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